quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Francesco Giarrusso.


O recente documentário "Canto da Terra D'Água" (Portugal, 2009, 30'), dos italianos Francesco Giarrusso e Adriano Smaldone, conheceu uma antestreia recente no passado mês de Dezembro, na Cinemateca Portuguesa. Após uma afectiva resposta deste meu lugar à exibição, é com prazer que investigamos as minúcias de um importante filme que une o relato do abandono de uma terra às memórias de quem a viveu e a vive. Uma entrevista ao realizador Francesco Giarrusso.


ENTREVISTA COM
Francesco Giarrusso

POR SABRINA MARQUES


SM- Como surgiu a ideia para o filme?

FG- Havia um tema a desenvolver. Era um tema bastante abstracto relacionado com o tempo, a ontologia da memória e tudo isso. Nós também queríamos aprofundar a ideia do trabalho manual, da repetição do mesmo gesto, mas que produz sempre algo diferente. Fomos em busca de um artesão que partisse da procura de um pedaço de madeira para desenvolver a própria obra. O que nos interessava era a atenção sobre o tempo, na permanência da obra, e o devir, portanto, das acções do homem em relação à natureza . Ao mesmo tempo, interessava-nos ainda o permanecer útil de alguma coisa feita pelo homem. Este tema, bastante abstracto, achou uma concretização porque, por acaso, encontrámos aqui em Lisboa uma loja com umas máscaras. Perguntámos quem era o seu autor, e foi-nos dito que era um homem de Trás-os-Montes. Decidimos lá ir conhecer este homem. Este não se mostrou disponível para colaborar no nosso projecto mas, ao mesmo tempo, ficámos apaixonados pela região, pelas suas paisagens. Portanto, apesar da recusa do artesão, pensámos em ficar lá e desenvolver o nosso projecto em Trás-os-Montes, já que vimos na paisagem algo que se podia encaixar perfeitamente com esta temática do tempo e da memória, quase como um trabalho geológico e arqueológico. A partir daí, começámos a descobrir algumas linhas que se encontram no filme.




SM- Que outros interesses vêm em Portugal? Há outras regiões que gostariam de explorar e filmar?

FG- O que nos conduziu foi essencialmente o tema e não propriamente a região. Ainda bem que foi Trás-os-Montes, porque tem características que não podíamos encontrar em quaisquer outras regiões do país. Mas foi casual e, de momento, não temos projectos que pretendam investigar outras regiões.


SM- Quanto tempo demorou a concretização do projecto? Foi fácil conseguir apoios?


FG- Não. Concorremos ao concurso do ICAM em 2006, de pesquisa e desenvolvimento. E, por acaso, ganhámos o subsídio, de cinco mil euros, que era a quantia na altura atribuída a projectos documentais. A partir daí, começámos a desenvolver o projecto, a fazer trabalhos de campo, a investigar documentos. Porque a ideia inicial do filme incluía também documentos históricos da região. Nesse sentido, lemos algumas coisas relacionadas, fizemos pesquisa historiográfica. E então, desde a pré-produção até à finalização, o filme demorou-nos três anos. Acabámos em Julho de 2009. Os apoios foram difíceis porque, apesar de termos ganho o subsídio de pesquisa e desenvolvimento, é obvio que cinco mil euros não chegavam para realizar o filme. Nomeadamente por causa da distância. Não nos chegavam para pagar as despesas de aluguer do carro, gasolina, alojamento, comida, equipamento. Tivemos sorte ao encontrar, em Trás-os-Montes, uma associação que quase nada tem a ver com o cinema, mas que ficou muito interessada no projecto e nos deu uma ajuda enorme, a nível logístico, de alojamento e de deslocação pela região. Os outros apoios foram coisas muito pequenas, sempre inferiores a mil euros. Foi muito difícil. Tivemos sorte no que respeita ao equipamento, que foi emprestado por um amigo, e essa sempre foi uma despesa que deixou de ser um problema.


SM- A antestreia de “Canto da Terra d’Água” aconteceu recentemente na Cinemateca Portuguesa. Vai haver algum tipo de distribuição comercial do filme?


FG- Não. A única distribuição, por enquanto, é feita para cine-clubes, em vários pontos do país. Em relação a festivais, até agora concorremos em três. Um deles em Trás-os-Montes que, mais do que um festival, é uma mostra de cinema. O segundo festival foi no Brasil, em Belo-Horizonte, e o terceiro foi em Espanha, em Cáceres. Agora em Março, haverá um outro festival em Itália, e, por enquanto, é isto. Depois, ainda não sei, já que ainda estamos a propor o filme a vários festivais e ainda não obtivemos certas respostas. Mas, no ano passado, a maioria das respostas foi negativa. Espero que este ano as respostas sejam mais positivas, já que a versão comercial é impossível, essencialmente devido à duração do filme. Sozinho não pode ser projectado, para isso seria necessário um outro filme. Já é tão difícil no que respeita às longas metragens, mesmo dos realizadores mais conceituados… Em Itália, temos uma distribuidora, que não consegue pôr o filme em salas comerciais, ele é distribuído somente junto de cine-clubes e associações de cinema. Relativamente aos DVD’s, prefiro oferecê-los do que pô-los à venda. (risos)


SM- As pessoas que filmaram, chegaram a ver-se no ecrã? Como reagiram?


FG- Reagiram bem, gostaram. A protagonista, a mulher, foi a única a ver o filme projectado no grande ecrã, na mostra de Trás-os-Montes, que teve lugar na aldeia de Caçarelhos, no concelho de Vimioso, e é a aldeia dela. Gostou imenso, já que se pode dizer que ela faz parte do “star system” transmontano. Está habituada a ser filmada e gravada. Nos anos sessenta, se não me engano, foi filmada pelo Giacometti e pelo Lopes Graça. Ela entra, portanto, naquele arquivo “etnomusicológico” que o Giacometti fez acerca de Trás-os-Montes. É uma senhora que sabe lidar com as câmaras, com os microfones. Muito provavelmente, faremos lá em Trás-os-Montes uma antestreia, em Bragança ou em Vinhais, na primeira ou segunda quinzena de Março. O principal protagonista masculino ainda não teve a oportunidade de se ver no ecrã, mas pudemos mostrar-lho no computador portátil. Adorou ver-se e trabalhar connosco. Inclusivamente, prestou-se de imediato a fazer mais coisas, mais filmes, e queria encontrar-se connosco antes, talvez para fazer outras tarefas relacionadas com as filmagens. Foi muito engraçado, porque ele parecia quase uma criança, no sentido mais terno da palavra, porque estava mesmo emocionado por entrar num filme e orgulhoso por mostrar o seu trabalho. De facto, quando encontrava alguém da aldeia, a primeira coisa que fazia era falar acerca do filme, da cena em que entrara, do enquadramento, do sítio onde fomos, do que fizera, do que mostrara… Foi interessante.




SM- Foi de algum modo complicado trabalhar diariamente com pessoas que não são actores?


FG- Eles não têm muita consciência do que uma câmara consegue ver. Falam de fotografias, não têm aquela malícia que nós, por exemplo, demonstramos em relação a uma câmara: se está a gravar, então tenho de me arranjar. Ou seja, talvez não saibam qual é que é o poder de exposição de uma câmara que é capaz de amplificar a própria imagem, captando pormenores ou expressões que não é habitual vermos. A senhora que filmámos sabia os timings certos, sabia quando uma música ficara demasiado comprida e tinha, em pleno momento em que estava a ser gravada, a capacidade de abreviar a música, reescrevendo na própria cabeça algo mais aproximado do que achava que queríamos. Ou seja, sinais de que era muito receptiva e de que estava já habituada a estas interacções.





SM - A história narrada pela voz feminina parece seguir um caminho lógico próprio. Foi ficcionada, através dos vários documentos recolhidos, ou é a narração desses mesmos documentos?


FG - Fomos à procura e, felizmente, encontrámos estas cartas. Não lhes alterámos nada, a única coisa que fizemos, por uma questão de privacidade, foi retirar os nomes e as referências à vida pessoal dos respectivos remetentes e destinatários. Os erros gramaticais, a linguagem própria da carta permaneceu como no original. O que fizemos foi recortar excertos das cartas, apenas devido a uma questão temporal. O dispositivo do filme, por assim dizer, não é tanto de ficcionar mas talvez de falsificar o contingente para ir de encontro a um substracto mais verdadeiro. Foi quase caricaturar a mise-en-scène, para resgatar a “verdadeira” essência das pessoas e das paisagens. O que nos interessava era, exactamente, mostrar essa face mais íntima das pessoas. Isto vê-se sobretudo no homem, que está nervoso, que se confunde, que improvisa, que parece quase não saber lidar com a câmara. Nós não queríamos entrevistar as pessoas, porque este é um processo que implica necessariamente uma pergunta que, quando formulada, já contem em si a resposta. É, de certo modo, um dispositivo que falsifica, distanciando-se daquilo que nos propúnhamos a captar naquela região e naquelas pessoas. Queríamos criar uma distância entre nós, que não pertencíamos àquele lugar e àquela cultura, e as pessoas. A distância poderia ser aumentada apenas com esta encenação, mostrando quase a mise-en-scène, ou seja, mostrando que aquilo era falso, que não era nada naturalista. É tão falso e tão estabelecido, que consegue, a meu ver, atingir alguma coisa da essência de certas pessoas e de certo imaginário da região de Trás-os-Montes.




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