terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pensas como uma freira.



''Os meus homens são os livros.'' disse a minha professora de História do 11º. 
e aquilo ficou-me.

a minha avó dizia-me que antes iam para freiras aquelas raparigas que tinham tido um desgosto de amor. mas hoje, uma rapariga mata o corpo de forma diferente - o hábito da rapariga de coração esvaziado é subtil: enfiados uns óculos enormes na cara, esconde a testa com uma longa franja e compra sempre sapatos rasos. já não usa batôn vermelho. 

enquanto ela nega a juventude à espera que passe, a mãe parece ter uma crise de meia idade de cada vez que a vê
- ai filha que essas saias abaixo do joelho te fazem tão mais velha 
e o pai 
- já te vi melhor
e a irmã 
- que raio de roupa é essa 
e o melhor amigo 
- tens boa figura devias vestir-te sexy não percebo 
e alguém que acabou de conhecer
- tens os olhos mais tristes que alguma vez vi
e a colega de casa 
- sabes que mais, a tua vida não acontece no teu quarto 
e um devoto que ainda espera
- o tempo para amar é agora

é tudo tão profundamente ridículo - pensa 
enquanto se esforça por caminhar apressadamente
para não ser vista 
até cair num escuro qualquer
hoje 
esconde-se num recanto da biblioteca
recolhe entre as estantes 
abre secretamente os livros 
procura sabe lá o quê
lê aforismos poemas frases de fim
uns livros puxam os outros 
e
entre os gestos vãos
sente-se uma máquina de tentar
uma máquina de tentar qualquer coisa
o que é um contrassenso
ao menos as máquinas têm desígnios 
já ela
ela já sabe que a vida não é isto 
que o corpo não é isto 
isto é um estar além
ela sabe 
sabe bem que o homem ou a mulher que escolhem o espírito
já assinaram um suicídio simbólico 
por isso
hoje percebe melhor do que nunca a antiga Professora
a alma entende-se com os seus eleitos
ganham matéria e medida 
na sua companhia através das horas
estas páginas de grandes frases perduram, ecoam, salvam-nos 
haja salvação possível 
e
eis que 
a biblioteca fecha às 8h da noite 
ela veste o grande kispo de penas para caminhar de volta a casa 
vai devagar
vai parar na loja de conveniência do costume
e levar comida para o gato

"broken hearts make it rain" 
o Thom Yorke ecoa na rádio
e eis que
não há coincidências: viu-o
estava a comprar tabaco 
parecia mais magro
já não dava para fugir
- olá
- ah estás por cá

um estranho momento de silêncio
encaminham-se para fora juntos
chove muito
ele entre os bafos leves do cigarro que acendeu
- estás com mau aspecto --- tens andado a dormir?
- 3, 4 horas por noite já sabes.
- assim --- vais morrer cedo !
- não importa.
- daqui a uns anos vais estar feliz --- casada --- com filhos lindos --- vais realizar-te e vais arrepender-te de um dia te teres insultado tanto --- vais dar-me razão ---
- mas alguém é feliz?
- eu espero ser --- e olha para mim tenho quase 40 --- quem devia estar mal era eu, eu já tenho menos tempo para errar --- eu é que devia estar mal --- e vês-me mal ? não me vês mal!--- 
- adeus.

decidiu que queria chegar rápido a casa e meteu-se no primeiro táxi 
caiu-lhe uma lágrima e o taxista
- você é muito nova para se enervar ainda apanha por aí uma depressão
obrigou-se a sorrir e demorou alguns segundos a dizer
- pois
viu o reflexo do seu rosto no retrovisor do táxi
- tudo se faz em nada
suspirou pela velocidade das luzes que correm
é Natal
as montras que piscam enquadram os grandes vestidos de purpurinas para as festas de passagem de ano e actualizam os mais clássicos perfumes de rosas. 

decidiu que vai oferecer livros a si própria e já os encomendou. 




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