sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Celebrando Jean Vigo.




Sensibilité de Pellicule
Tradução de Luis Filipe Rocha


O olho humano, "no estado actual do desenvolvimento científico", não é mais sensível que o coração.
Esta constatação seria deprimente se nós já nada tivéssemos a esperar da película cinematográfica. O qualificativo do hipersensível atribuído à última emulsão comercial ainda não será fatal. Sem dúvida que o precedente estabelecido com o termo supervisão, que consagrou finalmente o O.K. dos O.K. da realização, nos autoriza a estar inquietos. No entanto, se os nossos confrades que possuem lojas e mercadorias podem, por interesse, como o espectador por preguiça, misticismo ou gosto pelo suicídio, iludir-se acerca das virtudes de uma etiqueta superficial e sem futuro, vós, sábios desinteressados dos laboratórios, preocupados com os factos experimentais e sem classificação preconcebida, com certeza não vos deixareis enganar no dia em que um colega vosso, tendo feito desfrisar o seu cão, lhe chamar vaidosamente "caniche".
E é a esses benfeitores do cinema que pedimos socorro.
S.O.S!
Vós que ainda ignorais que o cinema é uma arte maior, que o cinema é a vida, que o cinema é um negócio.
Não me esqueço, no entanto, que vocês deixaram as primeiras adoradas imagens epilépticas para a C.I.N.E.M.A.T.O.G.R.A.F.I.A. , e não foram capazes de, estoicamente, como o papá e a mamã, nos privarem da câmara lenta e de outros truques, para melhor nos preservarem o "cinema puro". Ainda ontem, com a descoberta do sonoro integral, tomastes a precaução de suprimir os tenores, os ministros e outros?
Sei também que a vossa cor não será anilina, o vosso relevo será um pouco insípido e a vossa televisão um "fading" conformista para o Poder.
... Mas já que nada temos a esperar das esperanças do cinema!
Não estamos nós sempre a comparar teatro e cinema; a evocar tal pintor a propósito de imagens em movimento; a falar de música - e de músicos!- para qualquer solução sonora; a examinar o campo cinegráfico através da trama de tal página literária, como se se tratasse de um mapa transparente.
Afirmamos há muito tempo que o cinema é novo para não sermos nós os velhos.
E a esta idade já só se ganha a vida na lotaria.
Quem aposta? Contra os cineastas.
A favor dos trogloditas desconhecidos da proveta.
Uns e outros são, está bem de ver, nossos semelhantes.
Mas estou a explicar-me mal. Quem aposta?
Contra os homens do cinematógrafo.
A favor da matéria revelada e posta ao acaso em frente do catalisador humano, como se costuma dizer.
Então abandonemos neste, como em todos os outros domínios, a nossa superioridade em relação às coisas, à máquina.
Deixemos pois de afirmar que tal realizador, tal vedeta, tal director de produção vai por fim . . . - por fim, o quê? ? ? - quando a crítica, cada vez mais desembaraçada, torna as páginas independentes e publicitárias tão caras.
Arrumemo-nos o mais cedo possível no simples auxiliar, e se a dureza dos tempos nos obriga a ganhar a vida, tornemo-nos então técnicos qualificados.
Técnicos qualificados mas à maneira desses Negros que participam como carregadores, sem o saberem e mau grado eles próprios, na mais bela aventura.
Encarregados de transportar para os lugares naturais dos acontecimentos espontâneos as câmaras e os gravadores, o mais difícil do nosso papel seria, diz-se, a partir de agora, não nos esquecer-mos de os voltar a procurar um pouco mais tarde, enquanto o nosso aperitivo no bar da esquina exigiria toda a nossa inteligência, a nossa vontade, os nossos dons, os nossos gostos.
Assim pensava eu nessa noite bem negra de 2 de Setembro de 1932, diante do Bullier, em Paris, onde Maxime Gorki, Willy Munizemberg, Marcel Cachin, Schwernik e Henri Barbusse, entre outros, deviam prestar contas dos seus mandatos de delegados ao Congresso Mundial contra a Guerra, realizado alguns dias antes em Amsterdam sob a presidência de Romain Rolland.
Cerca de 25000 pessoas, das quais apenas 7000 conseguiram entrar na sala.
Na rua, uma multidão de curiosos e militantes aguardava, calma, silenciosa, um pouco triste, protegida por agentes da polícia.
E às 21 horas, um apito oficial: a carga!
Os cavaleiros, cabelos em pé e abrindo caminho a sabre, a brigada especial, onde a França esconde os seus atletas. A guarda móvel, paradoxalmente, de capacete. As matracas, que não são beringelas, em madeira, com a qual nos aquecemos, nas cabeças em breve abertas. Os punhos sobre o nariz que cede; sobre o olho que pende na ponta do nervo óptico, como o relógio de bolso dos nossos pais pendurado na corrente. O pontapé freudiano no baixo-ventre das mulheres e dos homens.
"Circulem!"
21h15.
"Descansem. Contem até quatro." Não há nenhum morto a assinalar entre os "manifestantes"; nem nenhum ferido entre os agentes da polícia.
Fracos candeeiros de gás para alumiar esta cena de urbanidade!
Quando é que, à falta dos homens, a película cinematográfica deixará de sr insensível a semelhantes espectáculos?


Por Jean Vigo, Solicitado por Henri Storck para a revista belga "Kamera" e publicado em 1932.


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