Imaculados kozakis de linho branco, os que marcharam a fúria imperial do czar. Desceram o massacre mecânico através das escadas. Odessa. No porto, esperava-se o Mar de esperança do couraçado vermelho que abraçaria a terra, mas foi o vulto da violência que manchou de sangue-quente aqueles degraus. À velocidade da tragédia, o terror correu, atropelou, esmagou, desesperou a dignidade das carnes da multidão que recebia Potyomkin, a armadura imperial revoltada. Czar Nicolau II de todas as rússias, Caesar sangrento, ditador de vidas, alvejaste meio povo num domingo de desalma, resguardado das vozes do direito na clasura eterna do teu palácio de inverno. Duas décadas volvidas, e a tragédia que a multidão não deu ao esquecimento regressa numa encenação de sabedoria jovem. Einsenstein, trono soviético do Cinema, viajou, na vanguarda do olhar, uma câmara através do trauma recente daquela escadaria. Com o génio dos seus vinte e sete anos, transcendeu os propósitos da potencialidade revolucionária do militarismo, para solidificar uma complexidade teórica, celebrar um auge dialéctico e ascender a montagem pelo engenho. Plano célula, Cinema orgão, vigor vital, respiração eterna.