domingo, 3 de maio de 2009

Jovem Kafka




"Nesta altura apareceram ateliers com as suas decorações e palmeiras, gobelins e cavaletes que, ambiguamente, oscilavam entre salas de execução ou representação, entre câmaras de tortura e salas de trono e que deixaram um impressionante testemunho de uma imagem precoce de Kafka. Num fato de criança, certamente desolador, sobrecarregado de berloques, vê-se um rapaz de aproximadamente seis anos, numa espécie de paisagem de um jardim de Inverno. Ao fundo, folhas de palmeira. E, como se tratasse de tornar estes trópicos remendados ainda mais asfixiantes e escaldantes, o modelo tem, na mão esquerda, um chapéu desmesuradamente grande, de aba larga, tal como o dos espanhóis. Claro que a criança desapareceria no meio deste arranjo, se os seus olhos, de uma imensa tristeza, não dominassem a paisagem que lhe tinham construído."
in Walter Benjamin, Pequena História da Fotografia

“Com isso o mundo se dividia para mim em três partes, uma onde eu, o escravo, vivia sob leis que tinham sido inventadas só para mim e às quais, além disso, não sabia por que, nunca podia corresponder plenamente; depois, um segundo mundo, infinitamente distante de do meu, no qual você vivia, ocupado em governar, dar ordens e irritar-se com o seu não-cumprimento; e finalmente um terceiro mundo, onde as outras pessoas viviam felizes e livres de ordens e de obediência.”
in Carta ao Pai, Franz Kafka, 1919

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