quarta-feira, 22 de abril de 2009

Querido Diário.



QUERIDO DIÁRIO (Caro Diario), em 20 momentos.
NANNI MORETTI, 1993

1. Diário em voz própria: Um plano inaugural introduz o escrevinhar azul de uma caneta, endereçada ao seu Caro Diário. Aqui se descobriu o tom com que se vai relatar em diante. É em conjugação reflexa que a voz do próprio Nanni Moretti se entrega a este pensar-narrar;

2. Diário como quem documenta: O acento documental acompanhará este protagonismo auto-biógrafo e, com ele, a passo de deambulação, o registo é o da liberdade sem freio, assinada pelo nome próprio que já nos habituou a descomplicar com ironia sobre tudo;

3. Diário para descobrir: Três capítulos são distinguidos ao longo da narração pessoal do realizador, secções de título sugestivo que, se movimentam e se dirigem até a maior e mais comum das utopias - a tal busca do tal sentido para a vida (e é ele que esboça o percurso para lá).

4. Diário da vespa: Num primeiro momento, intitulado “Na vespa”, acompanhamos a pulso a figura de um motociclista, pequeno vulto de capacete branco sempre enquadrado ao centro, que a um ritmo regular atravessa as luminosas ruas de Roma no Verão.

5. Diário para povoar o deserto urbano no Verão: A desertificação sazonal abre o palco à deriva solitária de Moretti, indefinido observador que atentamente perscruta e data a arquitectura em seu redor, do centro ao subúrbio, atravessando décadas em segundos, pela sucessão rápida das várias fachadas romanas. De olhar resguardado por óculos escuros, frequentemente sonha a habitação de certos edifícios e discute a inabitabilidade de outros, lançando-se em monólogos que os transeuntes só observam.

6. Diário para uma coreografia sobre o asfalto: Confessa o seu desejo sincero de saber dançar, ânsia que remonta à influências de Flashdance (Adryan Line, 1983), e que em repetidos momentos o conduz para os lugares vivos de baile, lhe prende a atenção às coreografias saídas da televisão, o liberta em esgares dançantes empoleirados numa vespa que, divertidamente, serpenteia o asfalto.

7. Diário para quem não sabe dançar: Em sequências cómicas de braços com a casualidade, o caricato motociclista acaba por avistar numa das suas ruas a protagonista da sua admiração, Jennifer Beals, estrela de Flashdance, e a curta conversa que entre eles se dá é crucial em demonstrar a ridicularização que Moretti arranca de si próprio, numa projecção de uma personalidade sua perfeitamente simplificada, inconsequente, inocente até na sua loucura afável.

8. Diário crítico contra os críticos: O decorrer deste esforço de “repérage” a céu aberto, como Nanni o legenda, é cruzado com os espaços interiores das salas de cinema, hábito crítico que liberta a imaginação à ilustração de uma fúria dirigida aos críticos e ao cinema italiano da sua geração.

9. Diário de uma elegia: Num comovente momento rememorador, o malabarismo veloz entre os dedos de Moretti sucede, em grande plano, variadas publicações que se remetem ao assassínio de Pasolini. De novo em cima da motorizada, atravessando agora uma paisagem demarcadamente nova, composta de um planalto acastanhado e estéril, coberto de uma nesga de mar e ao limiar do horizonte, sempre estático, um barco só, demasiado longe para sair de plano ao longo desse demorado travelling. As faixas pop que acompanharam a energia prévia da rota urbana, dissipam-se para dar lugar à melancolia de um piano em crescendo - até chegarmos à geografia pretendida: o lugar da morte de Pasolini assinalado por uma estátua descomposta, a aludir aos raquitismos provocados pelo esquecimento colectivo.

10. Diário de um advento. Está instalada a reflexão: é o próprio Moretti-realizador quem se espelha, relembrando um destino que ainda não lhe chegou.

11. Diário de um afastamento: No segundo fragmento, “as Ilhas”, o afastamento dos bulícios urbanos materaliza-se na fuga: Morreti busca um ideal de tranquilidade ideal que sirva ao seu estímulo criativo no arquipélago das Eólias, mediante o dever de redigir um guião.

12. Diário (impossível) de ilha em ilha. Acompanha-o o colega Gerardo e, nómadas de insatisfação, deambulam de ilha em ilha (Lipari, Salina, Stromboli, Pamnarea, Alicudi...) sem se entregarem a nenhuma, espécie de culpa que Moretti vocaliza: “...Não devo perder tempo, nunca (...) Mas desde que cheguei que não fiz outra coisa senão perder o meu tempo”. A cada chegada, a consciência dosmaneirismos locais que impossibilitam a sua habituação às tipicidades de cada ilha. Os dois romanos acham-se  impossibilitados de experienciar convenientemente a sua passagem, ecoando aqui uma incompreensão que, ao longo da sua obra, Moretti experimenta, na tentativa de definição do seu país e da sua cultura.

13. Diário de Stromboli. Na fumegante ilha de Stromboli, debaixo da “presença ameaçadora do vulcão”, a consciência eminente da catástrofe ateia a perturbação, tão memorável na sua ilustração por Rossellini em Stromboli, Terra di Dio (1949). Na apatia de Nanni Moretti gritando, de pés enfiados no negro das areias vulcânicas da encosta, pode ver-se o ardor pulsante pela libertação dos protagonistas de Pasolini nessas areias: um Massimo Girotti, em Teorema (1968), ou um Clémenti em Porcile (1969)...

14. Diário do fim da tradição: Nanni e o amigo Gerardo conhecem o prefeito desta ilha, figura incansável e delirante que ali exalta a necessidade da construção sucessiva, pregando a devolução da identidade à terra num regime de propriedade à moda do cosmopolitismo estrangeiro, sem contemplar a preservação histórica daquela paisagem enquanto património ou enquanto nacionalidade. Agitado, alucina o futuro urgente da terra como se projectasse um filme (um idílio) em que, afirma: Ennio Morricone comporia o som, Storaro faria a direcção de fotografia, e assim se conseguiria “reconstruir a partir do zero, Stromboli e Itália, uma nova maneira de viver...”.

15. Diário para um filme, por etapas: O último segmento, “Médicos”, coincide com um encerramento da estrutura iniciada. Comungando o diário com o realizador ao longo de três fases, este filme prosegue, em simultâneo, pelo ritmo faseado de uma preparação filmica.

16. Diário do real: Consequentemente, se os momentos de repérage e de escrita foram já enunciados, um terceiro momento poderia perfeitamente chamar-se de “realidade” ao ser de todos o menos encenado e, do mesmo modo, a projecção representativa para que toda a preparação até aí se construiu.

17. Diário dos pós-homéricos: Se o percurso intermédio entre as ilhas vulcânicas aludira, recorrentemente, ao elogio das façanhas de Ulisses, a materialização destas chega numa mimetizada odisseia, verdadeiramente empreendida por Moretti.

18. Diário de um diagnóstico médico por saber. O peso da veracidade asfixia pela primeira vez o ritmo deste filme, acentuando-se pela claustrofobia doméstica (Moretti já não se passeia na sua vespa, vê imagens de casas em grandes livros), e pela impaciente carência de respostas perante um diagnóstico difícil e moroso.

19. Diário de um cancro combatido: O limite intimista neste episódio (explicitação máxima da aspiração realista do filme), é a inclusão de Nanni Moretti de gravações de si mesmo no decorrer de uma sessão de quimioterapia. O resultado: um perturbador comprovativo que não precisará de uma só palavra para nos paralisar. O seu aspecto é grave, deslocado, impressionante, captado num zoom aleatório que progride na direcção do seu rosto para ali sublinhar um par de olhos fixos no chão, um corpo emagrecido sentado à cabeceira de uma cama de hospital e um telefone vermelho colado do ouvido ao queixo, para entreter o tempo.

20. Diário inconclusivo. Nanni abandona a caneta e o diário, afinal, os companheiros fiéis ininterrupto ao longo do filme. Interrompe o discurso. Permite que a ironia retorne. Ensaia alguma leveza no rosto e, num olhar provocante e fixo em nós, ergue um copo de água, como quem brinda: alla salute!

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