terça-feira, 21 de abril de 2009

KINO-OKO






NÓS!
VARIANTE DO MANIFESTO
Chamamo-nos os KINOKS para nos distinguirmos dos cineastas, rebanho de trapeiros que mal conseguem esconder as suas velharias. Não vemos qualquer relação entre a astúcia e os cálculos dos traficantes e o verdadeiro kinokismo.
O cine-drama psicológico alemão carregado pelas suas visões e recordações de infância é para nós uma inépcia. O Kinok agradece ao filme de aventuras americano, esse filme cheio de dinamismo espectacular, às encenações americanas do género de Pikerton, a cadência de imagens e dos grandes planos. É bom mas desordenado e não se baseia num estudo exacto do movimento. Um grau acima do drama psicológico mas, apesar de tudo, não tem fundamento. Lugar-comum. Cópia de uma cópia.
NÓS declaramos que os velhos filmes romanceados, teatralizados e outros têm lepra.


-Não se aproximem deles!
- Não lhes toquem com os olhos!
- Perigo de morte!
- Contagioso!
NÓS afirmamos que o FUTURO da arte cinematográfica é a negação do seu presente. A morte da cinematografia é indispensável para que viva a arte cinematográfica. NÓS convocamos para se acelerar a sua morte!
*

MIOPIA LEGALIZADA
Qualquer pesquisa mais séria não revela qualquer filme, qualquer pesquisa que se esforce verdadeiramente para emancipar a câmara de filmar que se encontra oprimida por uma triste escravidão, sujeita a um olho humano imperfeito e míope.
(...)
Eu sou o cine-olho. Eu sou o olho mecânico.
Eu, máquina, mostro-vos o mundo como só eu posso vê-lo.
Eu liberto-me, desde hoje e para sempre, da imobilidade humana, eu estou em movimento contínuo, aproximo-me e afasto-me dos objectos, deslizo por baixo deles, trepo por cima deles, movo-me ao lado de um cavalo a correr, irrompo, em plena velocidade, na multidão.
(...)
Aqui estou eu, aparelho, lanço-me seguindo a resultante, ziguezagueando no caos dos movimentos, fixando o movimento a partir do movimento saído das combinações mais complicadas. Liberto da norma das 16/17 imagens por segundo, liberto dos limites do espaço e do tempo, eu confronto entre eles todos os pontos do universo onde quer que eu os tenha fixado.
A minha vida é dirigida para a criação de uma nova visão do mundo. Deste modo, eu decifro, de uma nova maneira, um mundo que vos é desconhecido.


A orelha não espia, o olho não escuta.
PARTILHA DE FUNÇÕES.
RÁDIO- ORELHA -
É A MONTAGEM DO QUE EU ESCUTO!
CINE-OLHO - É A MONTAGEM DO QUE EU VEJO!


No caos dos movimentos que passam perto de nós, que fogem, que avançam para nós e que se chocam, na vida, entra simplesmente o olho
NÓS, os KINOKI, adversários resolutos de qualquer síntese prematura (apenas se alcançará a síntese no zénite das realizações!), compreendemos que é vão misturar migalhas dos êxitos: a desordem e a falta de espaço matam os bebés imediatamente. E, de forma geral,
A ARENA É PEQUENA

Eu peço-vos, entrem na vida.
Aqui trabalhamos nós, os mestres da vida, organizadores da vida visível, dotados de um cine-olho que chega a tempo a todo o lado.
Aqui trabalhamos nós, os mestres das palavras e dos sons, os montadores mais hábeis da vida audível. E eu ouso colar uma orelha mecânica omnipresente e um altifalante: o radiofone.
Mas o que é isso?
As CINE-CRÓNICAS
São as RADIOCRÓNICAS.

Organização das observações
do OLHO HUMANO


DESDE HOJE: no cinema não temos necessidade de dramas psicológicos ou policiais,

DESDE HOJE: não temos necessidade de encenações teatrais filmadas.

DESDE HOJE: não temos necessidade de adaptar Dostoievski nem Nat Pinkerton.


Tudo está incluído no novo conceito de CINE-CRÓNICA.
Na barafunda da vida entram de modo decisivo:
a) o CINE-OLHO, que disputa ao olho humano a representação visual do mundo e que propõe o seu eu vejo!
e
b) o KINOK-MONTADOR, que organiza os momentos da estrutura da vida vista deste modo pela primeira vez.**





Man with a movie camera
DZIGA VERTOV


Parte 1 de 9



* Excerto da variante do manifesto "Nós", assinado por Dziga Vertov, publicada na revista Kinofot, nº1, 1922
** Manifesto publicado no nº 3 da revista Lef., de 1923, assinado por Vertov, com gravismo de Rodchenko.

Sem comentários: