domingo, 1 de março de 2009

Ode a Lisboa.

Ode ao Cinema.


LISBON STORY: WIM WENDERS (1994)

"- As imagens estão a vender o mundo ao desbarato. Quando vim para Lisboa para fazer este filme, julguei que conseguia fugir a isso. Falámos sobre isso, lembras-te? Queria filmar a preto e branco com uma máquina manual, como o Buster Keaton em "The Cameraman", percorrendo as ruas sozinho com a sua máquina- oh viva Dziga Vertov!... fingindo que a história do cinema não existiu e que eu podia recomeçar do zero, cem anos mais tarde.... Mas não funcionou, Winter.
Por algum tempo, pareceu funcionar, mas depois desmoronou-se tudo. Adoro esta cidade! Lisboa! E a maior parte do tempo, vi-a realmente em frente dos meus olhos. Mas apontar uma máquina de filmar é como apontar uma arma. E cada vez que a apontei, senti-me como se a vida se estivesse a escoar das coisas. E eu filmava e filmava, mas a cada rodar da manivela, a cidade recuava mais e mais, afastando-se mais e mais, como o gato sorridente da Alice. Estava a tornar-se insustentável. Desmoralizou-me imenso. Foi aí que te pedi que viesses. E durante algum tempo, vivi na ilusão de que o Som poderia resolver tudo. Que os teus microfones poderiam arrancar as minhas imagens à sua escuridão. (...) Uma imagem que não foi vista, não pode vender nada. É pura e, por conseguinte, verdadeira e bela. Numa palavra, é inocente. Enquanto nenhum olhar a contaminar, permanece em uníssono com o mundo. Se não for vista, a imagem e o objecto que esta representa permanecem juntos. Sim, é apenas quando olhamos para a imagem que a... coisa que ela contém... morre... e aqui está, Winter, a minha biblioteca de "imagens jamais vistas"! Todas estas imagens foram filmadas sem a intervenção do olho humano! Ninguém as viu enquanto foram gravadas, ninguém as viu depois. Filmei-as todas nas minhas costas! Estas imagens mostram a cidade como ela é, e não como eu desejaria que ela fosse."

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