terça-feira, 24 de março de 2009

O Sonho.


PATTI SMITH - DREAM OF LIFE.
STEVEN SEBRING (2008)


Reconhecer semelhança no outro, eis o objectivo da sociedade 
(e do cinema?) : 
Prazer escorrido na espinha, condensado em cada nervo.
Sonho por vida em que se caminha cada dia.
Como se esbanja uma pele
como se gasta um tempo?
 Sem ponteiros a rodar sobre os limites, como preveriam os olhos nus. 
O sonho é este rosto que não conhece o corpo, como um cadáver destinado ao Céu. 
Somos todos os bons pecadores. 
Todos somos deuses e em cada peito trazemos um paraíso em bruto. 
Amem-se uns aos outros, como eu vos amei. 
Amem-se entre a ternura e a loucura, amem-se pela poesia e pela música, 
amem-se nos narcóticos e nos psicotrópicos
Amem a dádiva do dia,
Atentem na voz da vida
chamem o destino para este banquete de sol a sol. 
Sentiram a luz de hoje a vincar-vos a pele? 
Esse sol das onze em ponto que me franziu a testa
 que me espelhou a sombra na vidraça 
e que fechou o meu rosto. 
Como lhe tenho carinho, que me traz o mundo. 
Como lhe tenho temor, que me traz a idade.
Cada dia tem assim um segundo secreto com dez anos de velhice. 
Dez anos do vigor de Patti Smith no ecrã. 
Dez anos de eternidade captados pela companhia quase ocular da câmara de Steven Sebring. 
O realizador ama com uma máquina-de-filmar.
Tremendo, por prazer, por Patti. 
Eterna, atravessa gerações para declamar os heróis com fascínio 
Revisita Rimbaud, Blake, Burroughs ...
 e em cada legado revisitado, a certeza do devir como ordem natural de todas coisas. 
Beija recordações entre pincéis e polaroids, amuletos e ascetismo, e cultiva a estadia no pequeno apartamento como uma performance de regressão continuada.
Os olhos cinzentos de Patti Smith
sabem que a Beleza 
eterniza os espíritos e inscreve-os na poesia das eras,
que concede extremidades infinitas aos grandes corpos.

"In art and dream may you proceed with abandon.
In life may you proceed with balance and stealth."

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