quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Vida-Morte.



"não sou sujeito nem objecto, mas essencialmente um sujeito que sente que transforma em objecto: vivo então uma microexperiência da morte (do parêntese) torno-me verdadeiramente espectro. O Fotógrafo sabe isso muito bem e ele próprio receia (nem que seja por razões comerciais) essa morte na qual o seu gesto me vai embalsamar. Nada seria mais divertido (se não fôssemos nós as vítimas passivas, os plastrões, como diria Sade do que as contorções dos fotógrafos para dar "dar vida". Ridículo! (...) Aterrado, o Fotógrafo tem de lutar imenso para que a Fotografia não seja Morte. (...) aquilo que vejo é que me tornei Todo-Imagem, ou seja, a Morte em pessoa (...) Na Fotografia, a presença da coisa (num determinado momento passado) nunca é metafórica; e, no que respeita aos seres animados, a sua vida também não, salvo se fotografarmos cadavers. Nesse caso, se a fotografia se torna horrível é porque certifica, por assim dizer, que o cadáver está vivo, enquanto cadáver: é a imagem viva de uma coisa morta. Porque a imobilidade da foto é como que o resultado de uma confusão perversa entre dois conceitos: o Real e o Vivo.”
ROLAND BARTHES, A CÂMARA CLARA


daqui, um pouco de fotografia Post-mortem por Zeebrouck, hábito corrente no século XIX, que imortalizava as figuras cadavéricas, tão regularmente precoces.


2 comentários:

gonçalo jordão disse...

Se eu tivesse tempo e disponibilidade mental, investiria numa investigação que estabelecesse uma espécie de cadeia causal entre este Zeebrouck e as fotografias de acidentes de automóvel 'acabadinhos de acontecer' do Weegee, uns 50 anos depois.
Uma daquelas coisas que pode não servir para nada, ou então para muita coisa...

Sabrina Marques. disse...

Acho que é bastante interessante ter atenção ao modo como, desde sempre, jogamos às escondidas com a morte.