sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Sair da Caverna, II.
Enfim, ó felicidade, ó razão, eu separava do céu o azul, que é negro, e vivi, centelha dourada da luz natureza. Em minha alegria, eu assumia uma expressão tão burlesca e alucinada quanto possível:
Ela foi reencontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar
Ao sol misturado.
Minha alma eterna,
Segue teu rogo
Contra a noite pura
E o dia em fogo.
Te libertas então
Dos votos humanos,
E ímpetos vãos!
E voas segundo...
Jamais a esperança,
Jamais orietur.
Ciência e paciência
O suplício é seguro.
Tampouco futuro,
Brasas de cetim,
Vossa paixão
É a obrigação.
Ela foi reencontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar
Ao sol misturado.
Tornei-me uma ópera fabulosa: vi que todos os seres têm um fatalismo da felicidade: a ação não é a vida, mas uma forma de dilapidar alguma força, um enfraquecimento. A moral é a debilidade do juízo.
Parecia-me que a cada ser devem ser dadas outras vidas. Este cavalheiro não sabe o que faz: é um anjo. Esta família é uma ninhada de cães. Diante de vários homens, falei em voz alta com um momento de uma de suas outras vidas. — Assim, amei um porco.
Nenhum dos sofismas da loucura, — a loucura de atar, — foi esquecido por mim: eu poderia repeti-los todos, tenho o sistema.
Minha saúde esteve ameaçada. O terror me invadia. Caía em sonos de vários dias e, desperto, continuava os mais tristes sonhos. Estava maduro para a morte, por uma senda de perigos minha fraqueza me conduzia aos confins do mundo e da Ciméria, pátria da sombra e dos turbilhões.
Tive de viajar, dissipar os encantamentos reunidos em meu cérebro. No mar, que amava como se devesse purificar-me de uma mancha, eu via elevar-se a cruz consoladora. Eu fora amaldiçoado pelo arco-íris. A Felicidade era minha fatalidade, meu remorso, meu verme; minha vida seria sempre excessivamente imensa para ser dedicada à força e à beleza.
A Felicidade! Seu dente, doce até a morte, me advertia do canto do galo, —ad matutinum, no Christus venit, — nas mais sombrias cidades.
É estações, ó castelos!
Qual a alma sem defeitos?
Fiz o mágico estudo
Da ventura, que ninguém elude.
Saudemo-la, cada vez
Que cante o galo gaulês.
Ah! Não mais ambições:
Pus minha vida em suas mãos.
Este encanto prendeu-me alma e corpo
E dispersou os esforços.
Ó estações, ó castelos!
A hora de sua fuga, enfim!
Será a hora do meu fim.
Ó estações, ó castelos!
Isto passou. Hoje eu sei saudar a beleza.
Excerto de "Delírios", Cap. II "A alquimia do verbo", Rimbaud, tradução de Janer Cristaldo
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