Stromboli : Terra Di Dio
ROBERTO ROSSELINI (1950)

E Stromboli é um filme sobre a progressão da autodestruição de Karin-Ingrid, um filme em que, ao contrário do "nada se passa" que a crítica da época acentuava, tudo se passa no interior de Karin, num processo ditado não por acontecimentos, mas por actos, que sinalizavam tanto o conflito que opõe Karin ao espaço envolvente, como a metamorfose interior, jamais explicitada, da personagem. Estamos em pleno universo rosselliniano : "universo de actos puros, insignificantes por si próprios, mas preparando, mesmo a despeito de Deus, a súbita e maravilhosa revelação do seu sentido". (Bazin).
Este filme, duma beleza alucinante, é um filme sobre o cosmos. Os três elementos - terra, água e fogo - que dominam a obra, marcam, mais do que a hostilidade dos habitantes da ilha, a separação e desarmonia de Karin, a mulher que não sabe o significado da palavra terra ("como se diz terra em inglês?") que cai na água, na única sequência em que entra no mar, e sobre o qual desaba o fogo do vulcão, cuja erupção começa exactamente quando ela acende o fogão da sua casa.
Rejeitada pelo espaço físico e humano, Karin só na espantosa sequência final, quando redescobre, ao mesmo tempo, as lágrimas e a maravilha do mundo (what beauty!), é capaz de clamar e invocar "Deixei que se aproximassem de mim os que não me interrogavam e deixei que me encontrassem os que não me procuravam". A epígrafe de Isaias que antecede o filme assume, nesse momento, a sua plena significação. Stromboli é o poema da criação.
JOÃO BÉNARD DA COSTA
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