quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Daqui para o comboio da alma.


Auto-retrato


Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Dial for Diva: BETTIE


BETTIE PAGE

A ex-modelo, o mais emblemáticos dos ícones pin-up, faleceu no passado 11 de Dezembro, deixando todo um espólio de erotismo burlesco em feições travessas, em filmes e fotografias que tanto ousaram nos anos 50. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A crise ja chegou ao Czaradox.


My own bloomberg happy-hour.

Estou cansada, ainda não se dorme bem por aqui.
Vou de férias por uns tempos. Até breve.


quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Cavalaria Portuguesa.

Bucólicos, boémios. Moços da barba e do bigode. Melosos, lusos, poetas, pop. Vozes do novo folclore. 

 
Sousa, B(Fachada), Samuel Úria, João Coração, Silas Ferreira, Tiago Guillul, Jorge Cruz. 
Foto de Vera Marmelo


  
BERNARDO BARATA : Ninguém Dá Por Nada 


  
JOÃO CORAÇÃO : Dobra 

  
JORGE CRUZ : Fado de Uma Rua Qualquer 


SAMUEL ÚRIA : Barbarella e Barba Rala 

 
MANUEL FÚRIA :Porta do Princípio 

  
B FACHADA : Anda que está dura 

 
CARLOS MARTINS : Vestido a esvoaçar 

 
WALTER BENJAMIN : Paris 

 
TIAGO SOUSA : A Espera 

  
NOISERV : Melody Pops
 
NORBERTO LOBO : Mudar de Bina

 
OS GOLPES


 
TIAGO GUILLUL : Beijas como uma freira 

FEROMONA : 

Feromona - Psicologia from Bernardo Barata on Vimeo.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Fotografia de Guerra


"Fui testemunha e estas fotografias foram a prova. Os eventos que capturei não devem ser esquecidos e não devem ser repetidos."

James Nachtwey - FOTÓGRAFO DE GUERRA

Dividir por zero.

Ainda estou viva porque é feio recusar presentes.

You and me, Lang, 1938

Bom dia.






Hymne à la beauté
BAUDELAIRE


Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l'abîme,
Ô Beauté ? ton regard infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l'on peut pour cela te comparer au vin.

Tu contiens dans ton oeil le couchant et l'aurore;
Tu répands des parfums comme un soir orageux;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l'enfant courageux.

Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres ?
Le Destin charmé suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres,
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.

Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l'Horreur n'est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.

L'éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crépite, flambe et dit : Bénissons ce flambeau !
L'amoureux pantelant incliné sur sa belle
A l'air d'un moribond caressant son tombeau.

Que tu viennes du ciel ou de l'enfer, qu'importe,
Ô Beauté, monstre énorme, effrayant, ingénu!
Si ton oeil, ton souris, ton pied, m'ouvrent la porte
D'un Infini que j'aime et n'ai jamais connu ?

De Satan ou de Dieu, qu'importe ? Ange ou Sirène,
Qu'importe, si tu rends, - fée aux yeux de velours,
Rythme, parfum, lueur, ô mon unique reine ! -
L'univers moins hideux et les instants moins lourds.

: PERSISTÊNCIAS DA MEMÓRIA

*










Young Mr. Lincoln,
John Ford (1939)



*









La Collectioneuse
Eric Rohmer (1967)




*










Great Expectations (Intro)
David Lean (1946)



domingo, 16 de novembro de 2008

how should i spend my time?

repeat it.
repeat it.
repeat it.

(brain dead liberty)

- "O ditador caiu duma cadeira, os árabes deixaram de vender petróleo, o morto é o melhor amigo do vivo, as coisas nunca são o que parecem, quando vires um centauro acredita nos teus olhos, se uma rã escarnecer de ti atravessa o rio. Tudo são objectos. Quase."
Objecto Quase, José Saramago, 2ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1984







sexta-feira, 14 de novembro de 2008


- I'm so sorry, it was the wrong version.
- Yes.
- It was never meant to be read.
- No. (...) What was in the version I was meant to read?
- it was more formal, and less...
- Anatomical?
- Yes.


ao Stranger Than Paradise.

degradação moral e física, individual e colectiva


Blindness, Fernando Meirelles (2008)


.

PLEIN SOLEIL

Fernando Meirelles n’est pas le premier grand réalisateur à manquer son rendez-vous avec le cinéma d’anticipation. François Truffaut, avant lui, avait signé une pâle adaptation de Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, n’en déplaise aux amoureux de la Nouvelle Vague, alors que David Lynch s’était perdu dans les atermoiements de la production de Dune. Avec Blindness, le cinéaste brésilien décrit un monde en pleine déliquescence, victime d’une épidémie de cécité qui pousse les gouvernements à des mesures radicales. Raconté en trois actes très inégaux – la propagation du fléau, le camp concentrationnaire, l’errance dans la mégalopole -, le nouveau film de l’auteur de La Cité de Dieu lorgne du côté du cinéma très noir de Lars von Trier, en reprenant notamment le gimmick d’une voix-off distancée et moralisatrice. La farce métaphorique s’enfonce ainsi dans les clichés, même si le personnage de la madone protectrice, incarnée par la toujours parfaite Julianne Moore, donne un peu de nuance à cette vision misanthropique de l’âme humaine. Les artifices de mise en scène utilisés ça et là – comme lors de la scène du viol collectif – accentuent même le malaise de cette démonstration beaucoup trop lourde pour convaincre. Reste une dernière demi-heure qui confirme le talent visuel du réalisateur de The Constant Gardeneret imprime durablement la rétine. Dommage que Fernando Meirelles n’ait pas abandonné plus tôt sa parabole concentrationnaire pour cette odyssée apocalyptique aux impressionnantes fulgurances.
par Yannick Vély

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

: Escolher a dedo as causas

: ''Na ruína do nosso tempo, vê se escolhes o mais importante dela. Evitarás assim o ridículo de chorar a perda de um alfinete numa casa que te ardeu.''

Virgílio Ferreira


Sobre batalhas.

Battleship Potemkin, Sergei M. Eisenstein, 1925

The surprise is half the battle. Many things are half the battle, losing is half the battle. Let's think about what's the whole battle.
David Mamet

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

PAX PERPETUA

E OUTROS AUSPÍCIOS.


" Nem um pingo de ódio naqueles olhos."


Nelson Mandela


Well Jo'anna she runs a country
She runs in Durban and the Transvaal
She makes a few of her people happy, oh
She don't care about the rest at all
She's got a system they call apartheid
It keeps a brother in a subjection
But maybe pressure can make Jo'anna see
How everybody could a live as one
Gimme hope, Eddy Grant

A primeira pergunta do acordar :

(MY OWN PRIVATE WHY)
Vivre Sa Vie, Godard, 1962

The Hollows
WHY?


domingo, 9 de novembro de 2008

STROMBOLI.




Stromboli : Terra Di Dio
ROBERTO ROSSELINI (1950)



E Stromboli é um filme sobre a progressão da autodestruição de Karin-Ingrid, um filme em que, ao contrário do "nada se passa" que a crítica da época acentuava, tudo se passa no interior de Karin, num processo ditado não por acontecimentos, mas por actos, que sinalizavam tanto o conflito que opõe Karin ao espaço envolvente, como a metamorfose interior, jamais explicitada, da personagem. Estamos em pleno universo rosselliniano : "universo de actos puros, insignificantes por si próprios, mas preparando, mesmo a despeito de Deus, a súbita e maravilhosa revelação do seu sentido". (Bazin).
Este filme, duma beleza alucinante, é um filme sobre o cosmos. Os três elementos - terra, água e fogo - que dominam a obra, marcam, mais do que a hostilidade dos habitantes da ilha, a separação e desarmonia de Karin, a mulher que não sabe o significado da palavra terra ("como se diz terra em inglês?") que cai na água, na única sequência em que entra no mar, e sobre o qual desaba o fogo do vulcão, cuja erupção começa exactamente quando ela acende o fogão da sua casa.
Rejeitada pelo espaço físico e humano, Karin só na espantosa sequência final, quando redescobre, ao mesmo tempo, as lágrimas e a maravilha do mundo (what beauty!), é capaz de clamar e invocar "Deixei que se aproximassem de mim os que não me interrogavam e deixei que me encontrassem os que não me procuravam". A epígrafe de Isaias que antecede o filme assume, nesse momento, a sua plena significação. Stromboli é o poema da criação.

JOÃO BÉNARD DA COSTA

Neste quarto, vivo até onde eu quiser.








Sam Taylor-Wood

Porque é que eu sou eu e não sou tu ?


Wings of Desire
WIM WENDERS (1987)


When the child was a child, it was the time of these questions. Why am I me, and why not you? Why am I here, and why not there? When did time begin, and where does space end? Isn't life under the sun just a dream? Isn't what I see, hear, and smell just the mirage of a world before the world? Does evil actually exist, and are there people who are really evil? How can it be that I, who am I, wasn't before I was, and that sometime I, the one I am, no longer will be the one I am?


auto-referencial :

SABRINA, BILLY WILDER, 1954

Sabrina
EINSTURZENDE NEUBAUTEN


It's not the red of the dying sun
The morning sheets' surprising stain
It's not the red of which we bleed
The red of cabernet savignon
A world of ruin all in vain

It's not that red
It's not that red
It's not that red

It's not as golden as Zeus's famous shower
It's doesn't, not at all, come from above
It's in the open but it doesn't get stolen

It's not that gold

It's not as golden as memory
Or the age of the same name

It's not that gold
It's not that gold
It's not that gold
It's not gold at all

I wish that would be your color
I wish this would be your color
I wish this would be your color
Your color, I wish

It is as black as Malevich's square
The cold furnace in which we stare
A high pitch on a future scale
It is a starless winter night's tale
It suits you well

It is that black
It is that black
It is that black
It is that black

I wish this would be your color
I wish this would be your color
I wish this would be your color
...
Your color, I wish


"...por mais bela que seja cada coisa...

...tem um monstro em si suspenso."
Sophia de Mello Breyner



Peace, Love, Empathy,

the (very) end
ἀπὸ μηχανῆς θεός
E NO PRINCÍPIO ERA O KHAOS...


WE ARE MISSING THE TRAGIC ELEMENTS,
MY LOVE.
(Tempus fugit)


O Êxtase de Santa Teresa D'ávila, Gian Lorenzo Bernini


Torre de Babel, Pieter Bruegel

Bāb-ilu
Bavél

E eles pegaram numa broca, e procuraram perfurar os céus, dizendo: Vejamos se o céu é feito de barro, ou de latão, ou de ferro. Quando Deus viu isto, Ele não os permitiu, e castigou-os com cegueira e confusão da fala, e tornou-os no que vistes.
(Apocalipse Grego de Baruch, 3:5-8)




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Ad astra et ultra


Natalie Portman

Kurt Cobain, Seattlesky



Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros, na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos! vamos conjugar o verbo fundamental
essencial, o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.


Estrada

Não era noite nem dia.
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.
E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.
Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.
— Ó Nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?
Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.
— Vai te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti
Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!
Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho…
(Manuel da Fonseca)

As Bolas de Sabão

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

(Alberto Caeiro)

Tratados sobre a alma. noites febris.


Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e vai-se. Vai-se a nadar. (Se a vossa alma parte quando estão de pé, ou sentados, ou de joelhos, ou apoiados nos cotovelos, para cada posição corporal diferente a alma partirá com uma locomoção e uma forma diferentes, segundo concluirei mais tarde).
Fala-se muito em voar. Não é isso. Nadar é o que ela faz. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo.
Uma série de pessoas tem assim uma alma que adora nadar. Dá-se-lhes vulgarmente o nome de preguiçosos. Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.
A alma parte a nadar até ao vão das escadas, ou à rua, consoante a timidez ou a audácia do homem, porque ela conserva sempre um fio que a une a ele, e se esse fio se quebrasse (às vezes é muito fino, mas só uma força terrível o poderia romper) seria terrível para eles (para ela e para ele).
Então, quando ela está entretida a nadar ao longe, por esse simples fio que liga o homem à alma escoam-se volumes e volumes de uma espécie de matéria espiritual, como lama, como mercúrio, ou como um gás – gozo interminável.
É por isso que o preguiçoso é incorrigível. Nunca mudará. É também por isso que a preguiça é a mãe de todos os vícios. Pois acaso haverá coisa mais egoísta do que a preguiça?Tem fundamentos que o orgulho não tem.
Mas as pessoas irritam-se com os preguiçosos.
Quando os vêm deitados, batem-lhes, mandam-lhes água fria à cabeça, eles têm de recolher a alma imediatamente. Olham-vos então com esse olhar de ódio, bem conhecido, e que se vê sobretudo nas crianças.
HENRY MICHAUX

Conversas.


GONÇALO M. TAVARES + ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Uma interessantíssima conversa em redor da escrita e do recente Arquipélago da Insónia, de Lobo Antunes, que serviu de artigo à Visão. (Out. 2008) A ler no Cotonetes Van Gogh

Tornar quente a matéria fria : brotar vida no caminho para a morte. Ser mulher.





''The house a woman creates is a Utopia. She can't help it—can't help trying to interest her nearest and dearest not in happiness itself but in the search for it.''
Marguerite Duras

















Paris Photo 2008