segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Julie et Celine vont en bateau JACQUES RIVETTE (1974)

Through the rabbit hole

Celine (Juliet Berto)

Julie et Celine vont en bateau
JACQUES RIVETTE (1974)

por MANUEL CINTRA FERREIRA

Jacques Rivette é, entre os representantes da Nouvelle Vague, aquele cuja obra tem tido menos divulgação entre o público. À excepção de La Religieuse (1966), cuja proibição pela censura contribuiu para uma mais ampla circulação, todos os seus filmes anteriores a L'Amour par Terre têm tido uma difusão restrita, para o que contribuiu em parte um aparente carácter hermético. Desta primeira fase da sua obra, Céline et Julie Vont en Bateau pode considerar-se o mais legível dos seus filmes, numa história que mistura golpes de teatro rocambolescos à maneira dos primitivos filmes de episódios de Louis Feuillade, os gags de Max Linder e os melodramas de mistério. Céline e Julie "vont en bateau" à deriva pelos primitivos tempos do cinema. E Rivette, ao leme, não tem por preocupação a análise ou reflexão sobre esse cinema. Como toda a deriva não tem um fim em si, limita-se ao prazer de contemplar e, sempre que possível, participar, rever, voltar ao princípio num percurso circular. A legenda que repetidamente surge e que divide os sucessivos episódios ("Mais le lendemain matin...") serve mais para sublinhar essa circularidade do que para fazer progredir a acção, se assim se pode chamar a esta intricada rede de referências.

Céline et Julie Vont en Bateau concretamente o que representa? É um filme fantástico? De suspense? Uma farsa? Um melodrama? Possivelmente é tudo isso e coisa nenhuma, como Gérard Frot-Coutaz dizia em Cinema 74. Será, antes de mais, um jogo de ilusões e, portanto, de magia. O encontro e as aventuras de Céline e Julie têm a magia como ponto de partida e de desenvolvimento. É a profissão de Céline e a evasão de Julie, e é, também, a estrutura do argumento e da realização de Rivette. Julie lê o seu livro de magia e traça símbolos na areia do jardim. O olhar divaga pelos ramos das árvores, e um gato surge em pose de caçador. O gato é também um animal conotado com a magia, e no filme de Rivette ele vai surgir sempre nos momentos em que se passa de um mundo para o outro, na soleira da entrada para a casa assombrada onde se materializam os fantasmas de Julie. Céline surge a correr e, como o Coelho Branco de Alice vai servir de guia a Julie para entrar no reino das maravilhas, embora neste caso, a comparação com Through the Looking Glass esteja mais correcta. Porque as nossas heroínas mais do que entrarem num reino de maravilhas, passam para o outro lado do espelho, numa referência claramente cinematográfica. O que acontece na casa assombrada é uma outra história, como que um filme cujo projector são os caramelos mágicos. E, como filme, é aqui que se manifesta a busca de Rivette da natureza primitiva do cinema, com o seu ambiente fantástico e as incessantes repetições (a mão ferida de Bulle Ogier). E representa também a outra faceta do cinema de Rivette: a encenação sofisticada, a ênfase na representação, o domínio do teatral, que se vai afirmando cada vez mais na sua obra futura (Hurlevent, La Bande des Quatre): Marie France Pisier e Barbet Shroeder são os personagens "do outro lado do espelho", e a duplicidade de Céline e Julie, como espectadores e participantes representa simultaneamente o estado do espectador e o seu desejo de participação. Em termos fílmicos, Rivette materializa essa sempre latente identificação do espectador com a personagem.

Digamos, pois, que mais do que um filme, Céline et Julie Vont en Bateau representa um desejo de cinema, uma participação que não se limita ao acto de criar, o que será dito de outra forma pela Purple Rose of Cairo de Woody Allen. E esse desejo é também manifestado pela diferença de estilos entre o que vê e o que é visto, entre o filme e o "filme" no filme. Ao estilo sofisticado do segundo opõe-se uma ligeireza, a verdadeira deriva "en bateau" de Céline e Julie. Há uma sensação de leveza, de imponderabilidade nesta narrativa "primeira" (para a distinguir da que se passa no interior da casa) que dá ao seu "realismo" a autêntica dimensão mágica. Onde está o reino das maravilhas? Deste ou do outro lado do espelho? Está, no fim de contas, no próprio cinema que é capaz de tornar fantástica a imagem real, e dar um suporte realista a uma história fantástica.

Este espontaneísmo narrativo da história em exteriores, representa a outra faceta do cinema de Rivette, a que vem de Paris Nous Appartient  e encontramos ainda em Le Pont du Nord, e que tem vindo a atenuar-se de filme para filme, em detrimento da sua oposta. Digamos, por isso, que Céline et Julie Vont en Bateau é o filme chave de Rivette, aquele em que as duas tendências se encontram em equilíbrio perfeito.



Manuel Cintra Ferreira

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