quarta-feira, 30 de março de 2005

Sinto-me sempre assim:



depois de ler a imortal literatura do mundo

as crianças nas escolas
fecham ferozmente
os seus pesados
livros

e correm
sempre contentes
para o
pátio

ou

ainda mais
alarmante –

para as
suas
horríveis
casas.

não há nada mais
deprimente
do que
a imortalidade.

por A. Manuel Domingos

7 comentários:

  1. discordo. não ha nada melhor k a imortalidade, porque ela só chega quando já não temos de fazer mais nada para agradar. sendo assim somos aceites kuando a imortalidade chega. o unico contraponto é que a imortalidade boa só chega quando a vida acaba. no entanto a imortalidade é deprimente no sentido em que quando sabemos que se somos imortais não fazemos nada porque pensamos que a podemos fazer mais tarde. boa noite.

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  2. é porque potencialmente se pode chegar a imortal mas a esmagadora probabilidade é de que não se chegue que, quando se é mortal e se lêm os imortais, a depressão atinge.

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  3. a depressão só atinge se nos deixarmos atingir por ela. ou seja, se formos de facto para casa o mais provável é que não cheguemos à imortalidade porque já estamos a desistir antes de tentar lá chegar. a imortalidade alheia é o melhor que pode existir para motivar mais desejo de imortalidade. se nos deixarmos deprimir porque pensamos que chegar lá é dificil é porque somos cobardes, logo, nem sequer merecemos imortalidade. as probabilidades são estupidas. exemplo: há mais probabilidade de se ser atingido por um relampago do que morrer num acidente de avião. boa noite.

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  5. "..quando a poesia não é poesia, o tecto é recto!"

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  6. A ambição desmesurada sempre é melhor do que pessimismos idiotas. É preciso tentar até se conseguir. E se falhamos, tentamos outra vez. E se chegamos aos 70 anos e ainda não fomos reconhecidos, aí podemos começar a pensar em abrandar. “E também não sei até que ponto é que cada um deles se preocupou realmente com essa questão em vida.” Exacto! Quem diz que os imortais faziam para sobreviverem no post-mortem. A grande maioria era apenas um bando de bêbedos, drogados ou doentes mentais com problemas de adequação/adaptação social que faziam o que fizeram como exorcismo para os demónios que tinham presos na alma, mente e coração. Exemplo flagrante: Scorcese e Taxi Driver (apesar de este se ter consagrado em vida). O que importa é fazer e manter o ritmo. Mesmo que seja só produzir para a nossa própria satisfação. Temos de aprender a gostar de nós, estar em paz connosco mesmos antes para que depois os outros possam gostar. Se queremos mesmo ser imortais só nós nos podemos ajudar a nós mesmos. Mas estou a divergir.


    Não tenho absolutamente nada contra quem não quer ser imortal, mas acho que é dever do ser humano querer ser melhor, querer melhorar a sua performance, o seu estatuto, o seu legado. Ser imortal não, apenas ser melhor. Nem que seja só um bocadinho assim [ ]


    Eu também interpretei este texto livremente e posso dizer que não vi patamares sócio-económicos absolutamente nenhuns. Até admito que me concentrei apenas no ultimo verso pois foi algo que me tocou fundo na leitura diagonal deste blog tão fofo. Mas olhando outra vez, vejo o dilema imposto aos imortais pelo facto de terem sido publicados e estudados (além disso, o texto parece-me perfeitamente adequado ao contemporâneo). Ou seja, os imortais “vivem” ainda nos dias de hoje, mas para serem desprezados por estes putos que ainda não os sabem apreciar porque ainda não têm exp. de vida suficiente. Para eles, os imortais são apenas blocos de texto sem significado que lhes põem à frente e impõem ser o que é bom e o que eles têm de estudar, sem que lhes seja realmente explicado porquê.


    Quando estes putos acabam de ser submetidos a esta “tortura” vão lá para fora onde estão livres para fazerem o que lhes apetece, para interagirem, no fundo para brincar. É deste estado na vida que grandes obras surgem. Quando o futuro imortal anseia tanto recuperar a sua liberdade juvenil que passa a escrever, pintar, filmar, cantar acerca dessa ânsia. Com esta liberdade o puto poderá obter experiencia para que no futuro possa compreender as palavras do imortal e não só, até poderá mesmo tornar-se também ele um imortal. O perigo vem quando o puto vai para casa.


    Aí a vida dele fica fechada, não evolui, fica exposto à estagnação do seio familiar, é isso que é horrível, é isso que é triste, pois aqui não ganhará nada para apreciar as grandes obras nem fazer ele próprio as obras dele (sendo no entanto as casas apenas uma metáfora para a ausência do tão necessário “interagir” pois todos sabemos que dramas familiares são algo que não falta). É neste modo que a imortalidade é deprimente. Porque depois de sermos imortalizados vamos sempre ser desprezados sem hipótese de defesa, vamos ter de esperar sempre para ser apreciados por aqueles que o nosso mundo não conhecem. Vamos ser expostos a público errado e ser “comidos mortos”. É assim que vejo o poema agora. Amanhã posso vê-lo de maneira diferente.

    Resumidamente, se os miúdos vão para casa lixam-se pois não são nem expostos aos livros nem à brincadeira, logo não aprendem nada. Não evoluem. Não passam a ter mais dados de cálculo que possam usar ao longo da vivência futura. Estes miúdos estão condenados a ser os próximos donos daquelas casas apenas se se deixarem ficar em casa.


    “E sinto-me sempre assim porque, como disse anteriormente, não concebo a imortalidade como uma aspiração primordial humana e acho até, como referi, que se reflectisse sobre isso e a desejasse, o mais certo seria deprimir-me, como o texto enuncia.”


    Pergunta:
    Estás então a dizer que se pensasses em aspirar a imortal ficarias deprimida. Porquê?


    Como “aspiração primordial humana” queres dizer um desejo inerente, natural de todos nós? Assim sendo, não é algo que atinja todos os humanos. Achas que se todos nós pensássemos em tal coisa não ficaríamos também deprimidos ou pensas que é coisa apenas tua?

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  7. Não é de todo coisa só minha. Tu próprio disseste que "a imortalidade alheia é o melhor que pode existir para motivar mais desejo de imortalidade."
    Eu também respondi a isso, e até aceitei como perfeitamente válido de ser uma motivação.
    Mas falei de mim, porque o título é "Sinto-me sempre assim". E não me motivam os imortais, exactamente por não ter essas aspirações. E se pensasse em tê-las, se contemplasse a noção de imortalidade, aí ficaria deprimida pela altura inconcretizável dessa fasquia, apesar da atracção vertiginosa que, julgo, até se pode sentir sobre ela. Também seria por estar a caminhar na direcção errada, porque, como também referiste, muitos dos imortais eram apenas sujeitos desenquadrados a exorcizar sentimentos com talento. Mas discordo quando dizes que "A ambição desmesurada sempre é melhor do que pessimismos idiotas.", já que aí a depressão será inevitável, ao longo do percurso ou no limite dele, caso os objectivos pretendidos não se vejam alcançados.
    Bem, volto a referir que não vi a imortalidade como um objectivo a cumprir e também disse que não tem dever de ser “aspiração primordial humana”, exactamente por isso, porque não tem de ser inerente a cada indívido.
    Mas, e arriscando-me responder à questão através do debruçar sobre uma reacção hipotética, aspirar a esse nível traduzir-se-ia depressão, pelo que haveria de advir da minha noção de responsabilidade desse patamar, de probabilidades escassas e selecção restrita. Não acho que alguém esteja a ultrapassar uma crise de amor-próprio ou tenha fraca auto-consideração por não se achar um ser humano que poderá vir a ser imortal. Não vejo indignidade nenhuma em admitir que não prevejo a imortalidade do meu legado. Mas também não acho que isso seja a razão para cruzar os braços e não optimizar a sua "performance como ser humano", como também referiste. Esta tentativa de aproveitamento potencial individual, da melhor forma possível, já é, a meu ver, uma “aspiração primordial humana”.

    Por acaso hoje estive a ler uns textos sobre o Budismo, e por isso, vou aqui fazer uma menção superficial. Diziam qualquer coisa do género: Buda, que significa "desperto", atingiu o estado iluminado devido a uma visão. Viu a humanidade como flores de lótus num grande lago. Algumas estavam muito contraídas a grande profundidade. Havia umas que estavam a meio do lago, quase à tona da água e havia outras já de fora, às quais bastaria um leve raio de sol para desabrocharem plenamente.
    Acho que seremos qualquer coisa assim, de facto. E que os imortais, nas circunstâncias de que falaste quando disseste que "a imortalidade alheia é o melhor que pode existir para motivar mais desejo de imortalidade" são aquilo que Buda se propôs a ser naquela altura: as raízes dos lótus à tona que se prendem e arrastam as mais profundas para a superfície.
    Não todas, mas o que interessa aqui é que todas têm a potência para lá chegar também.
    Espero que te tenha respondido e esclarecido o meu ponto de vista.

    Agora deixa-me dizer-te que gostei da interpretação do texto e concordo que este texto pode ser actual. Falas dos hábitos próprios às crianças actuais e isso é importante, mas redutor. Porque nem sempre o artista teve uma educação caseira negligenciada, recebendo apenas o estímulo da escola e nem sempre o artista é um excluído à procura de escape ou um deprimido afectado por dramas domésticos.
    Mas tiveste o cuidado de te referir a maiorias, e eu também já falei de probabilidades.

    Aplaudo isto que disseste. É, em boa parte, verdade:
    "Porque depois de sermos imortalizados vamos sempre ser desprezados sem hipótese de defesa, vamos ter de esperar sempre para ser apreciados por aqueles que o nosso mundo não conhecem. Vamos ser expostos a público errado e ser “comidos mortos”. É assim que vejo o poema agora. Amanhã posso vê-lo de maneira diferente."

    Obrigada por visitares o Czaradox. Boa noite.

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