0

Helena Vieira da Silva

0
Já viste o Holiday do Cukor? e o Jour de Fête do Tati ? e o L'Atalante do Vigo?


Truffaut e Godard nunca vistos tão novos
0




la ragazza con la valigia. Zurlini, 1961

La Fille à la valise 

par Louis SKORECKI


J'étais juif, je rêvais. A Jacques Perrin, à Claudia Cardinale. J'étais envoûté par la Fille à la valise, troublé par sa sentimentalité italienne, sa morbidesse alanguie. J'étais tellement amoureux que je me transformais à vue d'oeil. Allais-je devenir un monstre, un mutant à mi-temps ? J'ai perdu, depuis, cet étrange don transformiste, mais il me suffit de fermer les yeux pour me rappeler. C'est l'année du bac. Au lieu de réviser, je rêve volontiers que je suis Dana Andrews qui rêve à Gene Tierney. Je rêve tellement fort que je crève l'oreiller. Elle ne se réveille pas. Elle est toute tachée, ma belle disparue, ma belle morte.

Quand je ne rêve pas à Gene Tierney, je rêve que je suis Jacques Perrin. Plus goy que lui, il n'y a pas. Blond vénitien, presque transparent. Le teenager ultime. Je rêve aussi que j'ai des seins, les seins de Claudia Cardinale. Petits, rieurs, légers, ils tiennent dans ma main. Mes seins tiennent dans ma main, maman ! J'ai crié, mais personne ne m'a entendu. Je suis seul dans la salle de cinéma. Des années plus tard, la sensation légère est toujours là. Lui aussi, il est toujours là. J'ai fini par coïncider avec moi-même, mais ces moments gracieux où je décollais de mon enveloppe terrestre sont encore là, à portée de main. Le plus drôle, c'est que je n'ai jamais réussi à ressembler pour de bon à Jacques Perrin. Le plus drôle, c'est le jour où une adolescente anglaise s'est approchée de moi en rougissant, un cahier à la main, me demandant de signer. Signer ? Moi ? Vous ne vous trompez pas ? Mais, non, vous êtes Scott McKenzie, c'est ça ? Vous, vous avez oublié qui c'est, vous ne pouvez pas savoir à quel point ça fait mal. «If you go to San Francisco/Be sure to put a flower in your hair», c'était lui. J'avais eu la mauvaise idée de me laisser pousser la moustache, j'étais devenu le clone du chanteur hippie le plus con de tous les temps. Jacques Perrin m'avait laissé tomber comme une vieille chaussette. Je lui en veux encore.
0
que horas são afinal?

Germania Ano Zero, Rossellini, 1948
Les 400 Coups, Truffaut, 1959








0
0
Gertrud, Dreyer, 1964


Carl Dreyer, Gertrud

Look at me a little. 
Am I beautiful? 
No. 
But I have loved. 

Look at me a little. 
Am I young? 
No. 
But I have loved. 

Look at me a little. 
Am I alive? 
No. 
But I have loved. 
2
0

14.

Cubro toda a terra daqui.
Dizem que é efeito das ilhas, já o pressinto.
As nuvens enegrecem no canal enquanto te digo isto.
Há também algo de nocivo nisso, eu sei. Tu sabes.
Talvez venha a tornar-se a voz numa sombra - é o
que dizem, ao chegar a estação das beladonas.
Foi após embarcares que senti tudo isto,
que comecei a confundir a noção dos dias,
o tempo que trazemos nos relógios.
Chego a tremer com o silêncio no planalto,
com o cheiro a cânhamo das furnas e
da neblina limosa formando-se em torno delas.
Acontece-me ter perdido alguns nomes,
outros lugares parecem-me vagos,
ausentes noutro corpo talvez esquecido, em extinção.
Mas descansa não é por vontade, é mesmo assim, já tinha dito.
É talvez porque o que fomos se apagasse e
só pudéssemos esperar
e uma sombra nos cresça na voz, cada vez mais.
Tu dirás isso por aí à tua maneira, se
quiseres - já agora não o esqueças.
Vou ficando semanas seguidas cá em mim,
sem descer à costa.
Aqui aguardo me tragam as cartas, as tuas,
e não julgues que não dei conta dessa angústia.
Se soubesses como me parecem sempre um eco, o
presságio de um mal que está para acontecer.
Mas não são sempre elas isso mesmo,
uma voz sustendo-nos, um
medo na parte mais desconhecida da memória?
Agora enquanto te digo isto as nuvens enegrecem no canal,
a tarde ficou mais bela, como só aqui pode ficar
com o vento que sopra do norte, da graciosa.
Tu sabes como sempre estas coisas me impressionaram:
a ressonância do ar cá em cima, o mar
escuro longe da costa, além de todo o possível,
a rebentação das ondas nos baixios para depois invadir as praias.
Mas além de tudo este silêncio oferecido no caule das hortênsias,
esse silêncio impedindo a aproximação do
mar a toda a volta.
Já te disse como aprendi a desconfiar do mar.
Da sua deriva invisível de um ao outro lado da ilha
como um perigo,
e fosse preciso agarrarmo-nos ao cais para não cairmos.
Já te disse que não há outro lugar para se saber isso,
outro lugar de onde se cubra assim
toda a terra.
Tenho cuidado do viveiro, tal e qual ensinaste,
lá vou escrevendo uma ou outra coisa devagar, se a isso leva.
O lúcio passa de quando em vez de
caminho para o norte grande.
Vai ficando por um ou dois dias, quando insisto.
Fala-me muito das ilhas e das pequenas histórias,
das araucárias que chegaste a ver, da
urzelina e da vila que ficou submersa com a lava, menos a torre,
das pequenas baleias que se passeiam ao longo da costa
como no belíssimo livro do tabucchi, que te contei.
Tudo está aqui ligado, no fundo - mas isso já nós sabemos.
Por isso cubro toda a terra daqui.
Olha,
um barco vem descrevendo agora a sua rota no canal.
Conheço-o daqui tão bem no seu silêncio.
Foi nele que chegámos.
Foi nele que partiste.
E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que elas têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.
Sim, cubro toda a terra daqui.
Outro dia abri a semente vermelha do café raro
e percebi que não quero sair nunca mais.
Talvez te custe saber isto, não sei. Se
calhar custa-me mais a mim.
Por isso quero dizer-te que não posso partir.
Acho que a vida encontrou-me na tranquilidade certa,
a verdadeira, a que nos cerca como um nevoeiro.
E podia contar-te mais, se quisesses.
Agora entendo como devíamos contar a nossa vida
sabias?
Contar o que ela tem a ver com tudo isto,
deambular por toda a nossa vida até aportarmos aqui,
vigiados pelas hortênsias,
cobrindo toda a terra.
Agora eu amo este planalto como não te amo a ti.
Porque amo-te apenas quando partiste.
Quando me deixaste na mão a certeza de te
esperar
e o dom de vigiar os navios e os cagarros.
Agora o vento cresce do mar pelo lado norte
e espero-te.
as nuvens enegrecem no canal, já tinha dito.
Assim ficarei até que chegues.
Até reconhecer o teu silêncio na inquietação das rotas.
Disseste que vinhas quando não esperasse a
tua carta.
E crê mais não ires pressentir do que a minha
sombra
lá pelo tempo das beladonas.

Rui Coias


Jean Epstein, Coeur Fidèle, 1923


0
Wynn-Bullock
0
a faca nas minhas mãos
está a  mais


M is for Murder, Fritz Lang, 1931
0





0
Têtes de Femmes, Jacques Feyder

A Woman's Secret (Nicholas Ray, 1949)

0
Ruth Orkin
0
(...)

E assim continuámos. 

Aquela hora não esquece. 
Não pode esquecer, 
nem se repete. 

(...)
IRENE LISBOA
0

How green was my valley, John Ford, 1941




0
- Dá-me por uma vez um beijo sem intelecto.


Rebel Without A Cause, Nick Ray, 1959


2

''Encontro a alegria de viver nas lutas da vida.''
STRINDBERG


A portrait of August Strindberg by Richard Bergh (1905).

Pelas fraquezas é que uma obra nos toca e é copiada. Quanto mais as tiver, mais ar de pedra caída de um astro. Strindberg maravilha-nos porque não saberia andar de mão em mão. Cai da lua. Está rodeado de vazio, eriçado de espinhos, eriçado de luz dura. Não lhe pega quem quer. No seu contacto não nos é consentido agarrar, apenas conhecer. Nenhum segredo conseguiremos devassar-lhe. 

- Jean Cocteau










0
0

Leio o livro pela décima vez, ou mais. Filho da puta, penso deles, livro e autor: uma frase tão perfeita, uma passagem tão perfeita. Uma palavra a mais seria um ruído tremendo; mas assim, como está, reconhece-se a mão do génio.
0


fugi
com um relógio
no lugar do coração


0


I was expected greatness- she said - so I brought back the rainbow.

0
para um lugar teu.


0
De duvidar se chegará o dia em que a veja finalmente uma vida bem-educada. 

De pensar se a vizinha ou o cão do jardim se entendem com as vidas que lhes ocuparam o dentro.




Thomas Roma
0

Voando sobre um Ninho de Cucos, Milos Forman, 1971


Lisboa dá de comer aos cucos na minha cabeça.

0
Chris Marker, La Jetée, 1962

Eu, sabendo que te amo, 
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

J
ÚDICE, NUNO (1997), A Fonte da Vida, Lisboa, Quetzal.
0
Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

Archives