Sobra a Construção de Obras Duradouras

Quanto tempo 
Duram as obras? Tanto 
Quanto o preciso pra ficarem prontas. 
Pois enquanto dão que fazer 
Não ruem. 

Convidando ao esforço 
Compensando a participação 
A sua essência é duradoura enquanto 
Convidam e compensam. 

As úteis 
Pedem homens 
As artísticas 
Têm lugar pra a arte 
As sábias 
Pedem sabedoria 
As destinadas à perfeição 
Mostram lacunas 
As que duram muito 
Estão sempre pra cair 
As planeadas verdadeiramente em grande 
Estão por acabar. 

Incompletas ainda 
Como o muro à espera da hera 
(Esse esteve um dia inacabado 
Há muito tempo, antes de vir a hera, nu!) 
Insustentável ainda 
Como a máquina que se usa 
Embora já não chegue 
Mas promete outra melhor. 
Assim terá de construir-se 
A obra pra durar como 
A máquina cheia de defeitos. 


Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 
Tradução de Paulo Quintela 


Vampire (1895) by Edvard Munch
Vampire (1895) by Edvard Munch
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La madre (Vsevolod Pudovkin, 1926)


"- Gostaria de ser verdadeiramente múltipla. Gostava de ser mãe, infinitamente.
- Eu sou ainda viva mas sou já uma morta. Não existo."

Rosa d'Areia, António Reis e Margarida Cordeiro, 1982


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''A Humanidade é fraca e por isso a comunhão é essencial.''
Basilides de Alexandria




FLUIDS, Allan Kaprow (1927-2006)
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by
Tina Barney






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série Marriage





série Mask











série Third Person



John Stezaker nasceu em Worcester no Reino Unido, no ano de 1949. É um artista que ganhou fama internacional pelos seus trabalhos de colagem em fotografia. Foi um dos artistas da arte conceptual britânica da primeira geração, a expor nos anos 60 e princípio dos anos 70. Durante a década de 70, foi pioneiro na arte da fotografia, expondo, através de mostras individuais ou colectivas, no Reino Unido e na Europa, tendo igualmente participado nas bienais de Veneza e de Paris. O seu envolvimento com a fotografia antiga e a técnica da colagem foi altamente influenciado, nos finais dos anos 70, principio dos anos 80, pelo movimento “New Image Art” nascido nos Estados-Unidos.
Na década de 90, este seu envolvimento com a linguagem imagética e o seu compromisso com a “fotografia antiga”, acabaram por servir de inspiração a uma nova geração de jovens artistas britânicos, os “YBAs”, com os quais veio a expor, a partir de meados dos anos 90, em colectivas na Austrália, na América e na Europa: a “Picture Britanica” em Sydney na Austrália; a “Life, Live” em Paris, no Museu de Arte Moderna; na bienal de fotografia em Ljubljana na Eslovénia e na “British Art Show” em Hayward na Califórnia, no ano de 2000.
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John Stezaker é um artista fascinado pelo poder das imagens, que questiona a autoridade das fotografias que encontra em livros, revistas, postais ilustrados e enciclopédias, intervindo directamente no espaço físico que ocupam. Stezaker divide para voltar a unir, inverte ou simplesmente ajusta uma imagem, através de um processo manual, cujo objectivo é o de reconstruir a imagem a partir da sua “desconstrução”, permitindo, assim, a sua participação activa no mundo actual.
Os seus trabalhos de colagem que fazem parte das várias séries já criadas, evocam a presença lúdica e fantástica que sugere o carácter sobrenatural das obras surrealistas. Através de processos de desconstrução e reconstituição, Stezaker oferece uma experiência fragmentada e participada de um mundo gerador de uma realidade estranha e desarticulada.
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No trabalho em série “Marriage”, Stezaker concentra-se no conceito de “retratismo”, tanto do ponto de vista de género artístico histórico como no de identidade pública. Utilizando “spots” publicitários de estrelas de filmes clássicos, o artista separa e “cola” rostos famosos, criando ícones híbridos que dissocia da sua natureza familiar para criar sensações do domínio do sobrenatural. Ao juntar identidade masculina e feminina através da unificação de carácteres, o artista aponta para uma harmonia desarticulada em que a não reconciliação da diferença tanto complementa como desvaloriza o conjunto. Na interdependência das suas imagens, as personalidades (e como nós as idealizamos) tornam-se dispensáveis e vazias, convertendo-se em seres abjectos através das suas imperfeições levadas ao exagero e da luta pelo predomínio visual.
No trabalho em série “Masks”, Stezaker prossegue no seu interesse pela face escondida. Imagens de postais ilustrados encobrem e substituem a fisiognomonia do sujeito, deixando um vestígio de cabelo, pescoço e roupas. Em “Pairs”, o postal ilustrado serve de máscara à cabeça dos casais, para, a partir do ponto em que se encontram ou se tocam, seja produzido um efeito surreal pela imagem sobreposta. Paisagens de cavernas tomam o lugar de expressões faciais fazendo-as combinar com cenários narrativos imaginários. Em “Nest”, é a imagem de uma coruja que constitui o elemento de ocultação que joga com a qualidade estética e psicológica do ninho e em que simbolicamente é criada a ambiguidade de síntese entre as figuras e os elementos “colados”.

Texto de Fernanda Valente (http://dasartesplasticas.blogspot.com)
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Foi assim que os pintores e os poetas de antigamente 
descreveram as almas: dotadas de sentidos.
Lucrécio, Da Natureza das Coisas

Kuroneko, Kaneto Shindô, 1968

Jigoku, Nobuo Nakagawa, 1968
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Pilar López de Ayala
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ROSBIFE
 de 
Tender Buttons 

de 
GERTRUDE STEIN 


tradução de 
  
A.M.J. Crawford 
Miguel Martins 



    No interior há dormir, no exterior há avermelhar, na manhã há significar, no anoitecer há sentir.  No anoitecer há sentir.  Em sentir algo há descansar, em sentir algo há montar, em sentir há resignação, em sentir há reconhecimento, em sentir há retorno e completamente enganado há beliscar. Todos os padrões têm evaporações e todas as cortinas têm lençóis e todo o amarelo  tem discriminação e  todo o círculo tem circular.  Isto faz areia.
    Ora bem.  Certamente o comprimento é mais fino e o resto, o resto redondo tem um verão mais comprido.  Brilhar, e porque não brilhar, brilhar, colocar,  aumentar, apressar a medida tudo isto nada significa se houver cantar, se houver cantar  então havera retomar.
     A mudança a terra, não mudar a terra quer dizer que não há bife e não ter isso não é obstrução, é tão fácil trocar de sentido, é tão fácil ver a diferença.  A diferença é que um recurso simples não está emaranhado com a espessura e não quer dizer que a grossura mostre tal corte, mas quer dizer que um prado é útil e uma vaca, absurda.  Não quer dizer que haja lágrimas, não quer dizer que sudação seja incomodativo, não quer dizer mais que uma memória, uma escolha e um restabelecimento, quer dizer mais do que qualquer fuga de um extra circundante.  Sempre que há uso há uso e sempre que há uma superfície há uma superfície, e cada vez que há uma excepção há uma excepção e cada vez que há uma divisão há dividir.  Sempre que há uma superfície há uma superfície e cada vez que há uma sugestão há uma sugestão e cada vez que há silêncio há silêncio e cada vez que é lânguido então há isso aí e não tão frequentemente, nem sempre, nem particular, tenro e mudando e externo e central e cercado e singular e simples e o mesmo e a superfície e o círculo e o brilho e o socorro e o branco e o mesmo e o melhor e o encarnado e o mesmo e o centro e o amarelo e o tenro e o melhor, e tudo junto.
       Considerando as circunstâncias não há ocasião para uma redução, considerando que não há ressoar não há ocasião para uma obrigação, considerando que não há escândalo não há a necessidade de qualquer reparação, considerando que não há qualquer partícula encharcada, não há ocasião para deliberação.  Considerando tudo e em que direção a volta tende, considerando tudo por que não há restrição, considerando tudo o que faz o lugar assentar e o prato distinguir algumas especialidades.  O todo não é entendido e isto não é estranho considerando que não há educação, isto não é estranho porque ter isso certamente mostra a diferença no corte, mostra que quando há virar não há temor.
      Em tipo, num control, num período, na alteração dos pombos, em cortes bondosos e espaços grossos e finos, em fiambre bondoso e cores diferentes, a extensão de inclinar algo forte para fora não para produzir um som mas para sugerir uma crosta, o sabor principal é quando há uma chance completa de ser razoável, isto não quer dizer que haja usurpar, isto não significa nada precioso, isto significa claramente que a chance de exercitar é um sucesso social.  Portanto, então o som não é obstrutor.  Suponha que é obstrutor suponha que é.  O que é certamente a deserção não é uma descrição reduzida, uma descrição não é um aniversário.
         Narceja amável e volta tenra, vapor excelente  e manteiga delgada, toda a lasca e o tronco, todo o bêbedo venenoso que escurece, toda a alegria de um sucesso fraco, toda a ternura alegre, toda a secção e o chá, toda simetria mais robusta.
        Por volta do tamanho que é pequeno, por dentro da popa que é o meio, além dos restos que estão rezando, por dentro do entre que está girando, toda a região é medir e derreter é exagerar.
        Fita rectangular não quer dizer que não haja erupção quer dizer que se não há lugar para segurar não há lugar para espalhar.  Bondade não é sério, não é assíduo não é reverenciado.
        Espaço para pentear galinhas e penas e roxo maduro, espaço para encurvar pratos únicos e grandes conjuntos e segunda prata, espaço para mandar tudo fora, espaço para poupar calor e destempero, espaço para procurar uma luz que seja mais simples, nenhum espaço tem sombra.
          Não há uso algum não há uso algum no cheiro, no sabor, nos dentes, nas torradas, em nada, não há uso algum e o respeito é mútuo.
          Por que deveria isso que é desigual, isso que é reiniciado, isso que é tolerável, por que deveria isto parecer um cheiro, uma coisa está lá, assobia, não é mais estreita, por que é que não há obrigação de ficar de fora porém coragem, a coragem está por todo lado e os melhores restos para ficar.
         Se pudesse existir o que é contido no que é sentido haveria uma cadeira onde há cadeiras e não haveria mais recusa sobre um ruído.  Um ruído não é um cheiro.  Tudo isto é bom.
       A tarde de sábado que é domingo é todos os dias de semana.  Que opção há quando há uma diferença.  Um regulamento não é activo.  Sede não é divisão igual.
    De qualquer modo, ser mais velho e idosíssimo não é uma sofreguidão nem é uma sucção, não é datado e cuidadoso, não é sujo. Qualquer coizinha é limpa, esfregar é preto.  Por que deveriam os carneiros ser cabritos e potros e nunca bife, por que seria, deveria porque há tanta diferença dentro da idade.
     Um som, um som completo não é separação, um som completo está numa ordem.
     Suponham que há um pombo, suponham que há.
   Soltura, por que há uma sombra na cozinha, há uma sombra na cozinha porque cada coizinha é maior.
     O tempo em que há quatro escolhas e há quatro escolhas numa diferença, o tempo em que há quatro escolhas há um tipo e há um tipo.  Há um tipo.  Há um tipo.  Supondo que há um osso, há um osso.  Supondo que há ossos.  Há ossos.  Quando há ossos não há supor que há ossos.  Há ossos e há aquele consumir.  A forma bondosa de sentir separar é ter um espaço no meio.  Isto mostra uma parecença.
     Esperança em portões, esperança em colheres, esperança em portas, esperança em mesas; não há esperança na delicadeza e na determinação.  Esperança em datas.
            Uma chapa não é uma lata e um fogão nem por isso.  Uma chapa não é necessária e uma maca também não.  Uma chapa nunca é
estreita e grossa.
     A côr está no carvão.  O carvão é sobreviver a assar e a uma colherada, uma colher inteira que está cheia não está a entornar.  Carvão qualquer carvão é cobre.
     Não reclamar nada, não reclamar qualquer coisa alguma, sem uma reclamação em tudo, coleccionar reclamações, tudo isto cria uma harmonia, até cria uma sucessão.
     Sinceramente graciosa uma manhã, sinceramente graciosamente a tremer, sincera em graciosa fuga com a amante, tudo isto cria uma fornalha e um cobertor.  Tudo isto mostra quantidade.
  Como um olho, não tão mais, nemhuma procura, nenhuns cumprimentos.  
   Por favor seja o bife, por favor bife, prazer não é choramingar.  Por favor bife, por favor seja entalhado-claro, por favor seja um caso de consideração.
    Procura uma negligência.  Um saldo, qualquer grandeza é um atraso e não há memória, não há uma colecção clara.
    Uma vista acetinada, o que é um truque, nenhum truque é montanhoso e a côr, toda a precipitação está no sangue.
    Regatear por pouco, regatear  por um toque, uma liberdade, um distanciamento, um peru típico.
   Por favor tempero, por favor sem nome, ponha um peso completo, afunde-se num levantamento comum, erga um círculo, escolha uma meia-volta, faça a ressonância considerada e reúna verde qualquer gola.
    Enterrar uma galinha magra, erguer uma pena velha, cercar uma grinalda e assar a farpa dum poste, sugerir um repouso e resolver simplesmente, rendermo-nos uns aos outros, ter sucesso em poupar
mais simplesmente, satisfazer uma singularidade e não ser mais cego, não adoçar nada mais escuro e ler mais vermelho, ter a côr melhor, ordenar o jantar, permanecer juntos, não surpreender nenhum pecador, não encurvar nada mais doce, continuar mais magro, aumentar o descanso à recriação para projectar uma corda menos turva.
      Nublado o que é nublado, é um forro, é um rolo, é um cadinho.
     O mais cedo que haja sacudir, o mais cedo que a frescura seja tenra, o mais cedo que a volta não seja redonda, o mais cedo que seja retirada em corte, o mais cedo que haja tinir, o mais cedo que seja mais triste que salada, o mais cedo que não haja ninguém fazendo-a, o mais cedo que não haja escolha, o mais cedo que haja um libertador de obscuridade, o mesmo mais cedo e mais mais cedo, isto não é nenhum erro em pressa e em pressão e em oposição à consideração.
     Um recital, o que é um recital, é um órgão e o uso não reforça o valor, acalma a medicina.
 Uma transferência, uma grande transferência, uma pequena transferência, alguma transferência, nuvéns e trilhos, claro, transferem, uma transferência não é abandonada.
     Orgulho, quando houver pretenção perfeita, não há mais do que ontem e normal.
    Uma sentença de uma incerteza que é violência é autoridade e uma missão e tropeçar e também, claro, também uma prisão.  Calma, a calma está ao lado do prato e dentro mesmo dentro.  Não há volta a dar ao terror.  Não há volume no som.
     Há coagulação no frio e não há nenhuma na prudência.  Algo está preservado e o anoitecer é longo e a primavera mais fria tem repentinas sombras num sol.  Toda a mancha é tenra e lilases realmente lilases estão perturbados.  Por que é o restabelecimento perfeito praticado e valorizado, por que é composto.  O resultado o puro resultado é sumo e medida e assar e exposição e descuido e sacrifício e volume e uma parte em divisão e o reconhecimento envolvente e horticultura e nenhum murmúrio.  Isso é um resultado.
   Não há sobreposição e circunstância, há dureza e uma razão e o resto e o resíduo.  Não há deleite nem matemática.

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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