DAYS OF GLORY / 1944
Independentemente da
sua factura, Days of Glory tem duas
peculiaridades: como é especificado no genérico, todos os actores sem excepção
fazem aqui a sua estreia no cinema, inclusive Gregrory Peck, que já tinha
experiência de palco; e é um daqueles raros filmes americanos de guerra
abertamente pró-soviéticos. Fala-se até em “camarada
Estaline”, com a maior naturalidade e embora a palavra “comunista” nunca
seja pronunciada, fala-se na “República Socialista Soviética” e todos se tratam
por “camarada”. No período final da guerra, depois da derrota nazi em
Estalinegrado (o filme ficou pronto em Abril de 1944, um ano antes da
capitulação do Eixo) a aliança com a URSS era suficientemente importante para
que a máquina de propaganda hoillywoodiana apresentasse o país de modo
favorável. Há até um esforço para que os actores falem com uma pronúncia
vagamente russa, para associar a ideia de “Rússia” à de “União Soviética”,
quando os não-comunistas sempre tentaram dissociá-las.
Mas o filme também é
revelador de outra característica dos métodos hollywoodianos, como contou
Tourneur na importante entrevista concedida a Simon Mizrahi em 1964 e que temos
citado ao longo destas folhas. Ouçamo-lo contar esta variante peculiar do velho
princípio de dividir para reinar: “Os
três filmes que eu tinha realizado com Val Lewton [Cat People, I Walked With a
Zombie e Leopard Man] tinham tido êxito. Os chefes do estúdio tiveram
então o seguinte raciocínio: se eles trabalham tão bem em conjunto, hão-de
trabalhar ainda melhor separadamente; vamos usar o talento de ambos e cada um
fará filmes pelo seu lado” (ou seja, “vamos ganhar o dobro do dinheiro). “Foi então que me confiaram pela primeira
vez a realização de um grande filme: Days
of Glory. Foi o meu primeiro filme com grande orçamento”. Tourneur
gostou particularmente de trabalhar com actores poucos experimentados, para
poder “modelá-los como barro”,
sobretudo Tamara Toumanova, célebre dançarina clássica, e Gregory Peck, que
cinquenta anos depois lembrava-se de instruções de Tourneur para que
projectasse menos a voz como no teatro e falasse de modo mais comum (“to stop projecting and to common up my
speech”).
Uma das características
do trabalho de Tourneur na RKO é inseparável do estilo da companhia, das mais
ousadas e inventivas na Hollywood de então (basta lembrar que em 1941 ousara
produzir Citizen Kane): os
orçamentos reduzidos nunca foram um impecilho para o apuro formal. Os cenários
são depurados, nunca atabalhoados, a fotografia é um sofisticado jogo de luzes e
sombras, características de que os três filmes de Tourneur produzidos por Val
Lewton e citados acima são exemplos patentes. Embora “com grande orçamento”, Days of Glory tem características
de produção de série B, cenários reduzidos, alguns exteriores feitos de tela
pintada que alternam com cenários naturais, ausência de multidões. Mas são
precisamente estas características que fazem as qualidades do filme, razão pela
qual Variety definiu-o como “um drama lento e tagarela, com demasiado
pouca acção”. Esta crítica só é aceitável para quem pensa que “acção”
dramática num filme é sinónimo de tiroteios, correrias e pancadaria. O filme
começa na neve, numa magnífica cena “de acção”, em que Tourneur nos reserva tão
longamente quanto possível a surpresa de revelar que o atirador que abate os
nazis é uma mulher. Na abertura e na conclusão, Days
of Glory tem
a voz off que caracteriza os filmes
de propaganda, o que até certo ponto é, e toda a acção principal decorre entre
quatro paredes, como um drama de vontades, de consciências, também nisso
bastante “russo” e até mesmo semelhante a alguns filmes soviéticos sobre a
“grande guerra patriótica”, semelhança que é sem dúvida alguma mera
coincidência. Como bem assinalou Chris Fujiwara no seu livro sobre Tourneur, “os cenários de Mordechai Gorelik,
soberbamente pormenorizados, enfatizam a teatralidade hermética do argumento. O
cenário do esconderijo subterrâneo permite a Tourneur dar largas ao seu gosto
para colocar fontes de luz no interior dos enquadramentos”. Estas
sequências de interior, em que são debatidas diversas atitudes em relação à
guerra (oportunismo, vontade de destruição, vontade de evasão), alternam de
modo clássico com sequências exteriores, que pontuam a acção e equilibram a
articulação visual do filme. Mas as sequências exteriores, “de acção” estão
longe de sempre significar uma forma de vitória. Também significam derrotas
para os guerrilheiros, para os que estão do lado certo e têm princípios morais,
embora não se furtem à crueldade e à mesquinharia da guerra. É num magnífico
plano geral em meio a paisagens cobertas de neve que Yelena, a mais competente
atiradora do grupo é abatida. E é no exterior, numa diminuta praça de estúdio,
que é executado o jovem Mitka, o idealista que não se deixa entravar pela
prudência. O seu heroísmo convencional e exemplar (“não se pode enforcar um povo”, frase que em 1944, quando povos
inteiros eram enforcados, tinha certamente um efeito diferente do que tem hoje)
não impede a sua morte. Tourneur resolve de modo magnífico e característico
esta sequência, mudando bruscamente de ângulo, para que o enforcamento seja em off, fiel ao seu princípio de que a
sugestão do horror é mais forte do que a sua exibição. Mas na lógica de um
filme hollywoodiano, as mortes de Yelena e Mitka têm algo de expiatório, menos
para a causa russa do que para a formação do par romântico formado por Vladimir
e Nina, para a sua consolidação. Nina ensina a Vladimir a voltar a amar a vida,
a voltar a construir (ele é engenheiro) ao invés de apenas destruir, e ele
ensina-lhe a carregar o seu fuzil, a matar. Um se aproxima da vida e o outro da
morte, convergência necessária na lógica do filme e na lógica da guerra, da
morte pela vida. Numa perspectiva puramente “autorista”, Chris Fujiwara propõe
uma ideia sedutora: “Days of Glory é o inverso de Cat
People. Em Cat People, Irene
representa um impulso de morte inapropriadamente atirado num país de vida; em Days of Glory, Nina é «uma pessoa de
luz e de vida, fora de lugar nesta região da morte». Em Days of Glory, a morte banalizou o impulso de morte e a capacidade
de sonhar que Nina manifesta torna-a «estranha». (…) Noutro eco misterioso de Cat People, Yelena é abatida por um
atirador alemão emboscado e Nina, no plano seguinte, desperta subitamente, como
se protestasse contra o acto de violência que o seu subconsciente desejara”.
Days of
Glory é, por conseguinte, muito mais do que um banal filme de
guerra, género que pode ser sobremaneira monótono. É um drama sobre a pulsão de
vida e a pulsão de morte, com toda a capacidade de sugestão que caracteriza o
cinema de Jacques Tourneur.
Antonio Rodrigues

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