domingo, 3 de abril de 2005

Mise-en-abyme

- O que vieste cá fazer? 
perguntou ele com interesse genuíno, 
os dois na cama, abraçados, depois do sexo e antes do sono.
- Ensinar, partilhar beleza, aliviar isto tudo do tanto que isto custa... Sem ser um sorriso pregado de idiotia e paz, às vezes criticar como quem sabe que destruir é também construir melhor... Mas procurar a conciliação... Partilhar o pouco que souber... Trabalhar a fundo no que é esperado de mim... Exceder-me... Replicar o que de melhor encontrar, dentro e fora... É isso, em sucinto...
respondi eu, com todas as dúvidas.

Voltei àquele momento muitas vezes, nos anos seguintes.

E por muito que tente reflectir e responder-te melhor, 
só encontro como constante uma verdade: a de nunca me sentir suficiente.



Deleuze


Reflectir significa espelhar, meditar, revelar. 
Aqui me espelho e, não raras vezes, pondero a utilidade geral disto tudo. 
Será que o objectivo vai passando?
Eu, para aqui debruçada a edificar imagem a imagem e
até este trabalho é um quadro possível de conforto. 
Mas nem por um momento me esqueço de que não longe há pessoas a morrer de fome. 
(Volto a tentar responder-te, na minha cabeça:

- Existo, apesar de tudo, comprometida em tomar o partido que me é mais lógico, o do amor, aspirando a que contamine tudo, sempre.)

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